Era anão. O vocábulo
“herança” causava um sentimento contraditório que variava da tolerância à
revolta. A herança genética advinda de sua árvore genealógica gerou aquele
fruto de tamanho diminuto, ele. E olha que seu pai era um alemão de 2,03 m de comprimento e sua
mãe, uma baiana arretada com seu 1,83 metros de estatura, e ele, filho único,
amargava 1,01 m
de altura.
Quanto à herança que
provoca desunião e até mortes entre os herdeiros, nada a reclamar, era imensa.
De uma cultura
erudita espantosa, avançava na cultura popular com o mesmo desvelo do que na
outra.
Era um boêmio
inveterado que não fazia distinção de classes e a sua atitude fez renascer um
dito dos pobres baianos, de mais de 180 anos, que quase havia se perdido no
tempo: “rico sem aviamento” (era o rico que tinha empáfia, ar de superioridade
e verdadeira repugnância aos pobres).
Ele, não. Era o “rico
com aviamento”. Não admitia o tratamento de doutor em função de sua profissão.
Exigia o mesmo tratamento usual entre aqueles iguais na desigualdade.
Médico de renome
nacional e internacional participava de todos os Congressos internacionais de
sua especialidade, enfim, exercia a profissão sempre no estado da arte.
Por generosidade e
sem remuneração dava plantões nos hospitais públicos que padecem no Brasil de
uma doença terminal: a inexistência de recursos para tudo (manutenção, compra
de equipamentos, de miseras gazes a algodão, etc.) pelo descaso e,
principalmente, pela roubalheira dos homens públicos desse país.
Das experiências
amargas vivenciadas na rede pública, e que foram imensas, a de maior amargor
foi quanto teve que escolher quem deveria sobreviver e quem morreria entre dois
seres humanos, em função de falta de sala de operação/equipes e leito no CTI.
Situação vista como
normal pela mídia que enfatiza que os médicos são obrigados a brincarem de
Deus.
Que país desgraçado é
esse onde os deserdados da sorte tem seu destino colocado nas mãos de quem
jurou salvar vidas – vide juramento de
Hipócrates; são na realidade hipócritas criminosos, coniventes com o descaso
dos homens públicos e assassinos em estado latente.
Aquela decisão
(vida/morte), desgraçadamente corriqueira para os colegas de trabalho, foi
única e marcou o início de seu fim.
Nas noites insones,
pensando na sua decisão, a depressão crônica não alcançou as quatro fases da
lua.
Sentia-se um
criminoso hediondo, afinal seu crime (assassinato) era doloso, definido nas
cóleras das leis, quando o agente tem a intenção de matar.
Nos últimos momentos
em que suas faculdades mentais estavam em frangalhos, avaliando a vida como
todo, concluiu: “a lucidez é o lado obscuro da insanidade”.
Hoje, no manicômio,
diz-se Polifemo, o gigante de um único olho no centro da testa, mas vigilante,
da mitologia grega, descrito pelo velho bardo grego, Homero, no nono livro de
sua Odisseia.
Leiam a Odisseia de
Ulisses e descubram que não passam de NINGUÉM.

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