Aquela terapia em grupo, efetivamente não poderia trazer bons
resultados, na melhor das hipóteses, nenhum.
A linha de ação do Psicólogo era terapia cognitivo-comportamental
que, entre diversos aspectos, é balizada, por definição, tanto pelo diagnóstico específico do transtorno mental,
como por uma análise do problema
pessoal (ou seja, uma descrição das particularidades do paciente).
A exceção de uma cadeira vaga, os pacientes encontravam-se
impacientes, tanto pelo atraso do profissional, quanto pela certeza do
resultado daquela exposição em público de suas idiossincrasias.
O Psicólogo entra naquela sala espaçosa, com cadeiras em formato
de um semicírculo, dirige-se ao seu local e, concomitantemente, saúda
coletivamente os presentes, sentindo a falta delas, As Reticências. Quanto ao atraso, nenhuma observação.
O desconforto dos pacientes: Trema, Apóstrofo, Hífen, Cedilha,
Aspas, Travessão, Acentos, Ponto e Vírgula, Dois Pontos, Ponto de Interrogação,
Asterisco e Ponto de Exclamação, aumenta com a presença do profissional. Encontravam-se
tensos e com sudoreses senegalescas, apesar do ar-condicionado marcar uma
temperatura significativamente baixa.
Utilizando-se da técnica, o Psicólogo Ponto (.) ameniza aquele estado de tensão no ar, mas não o peso do
mesmo, em função do resfriamento, afinal, isso não era de sua alçada de
competência.
A palavra é colocada à disposição dos pacientes e após, um breve
silêncio, o Apóstrofo (') começa a sua digressão: por
definição já sou um sinal gráfico bastante incompleto, indico a supressão de
uma vogal e vejo-me como uma vírgula de cabeça para baixo, às vezes. Outras
tantas, um acento agudo sem letra embaixo. Isso me causa uma depressão
profunda, uma tristeza infinda pela falta completa de identidade.
De forma espontânea, o Hífen
(-), até para sua surpresa, com um poder de síntese abre a sua alma: sou de
um refinamento extremamente complexo e com regras extensas e confusas, onde a
quase totalidade dos autores e ressalto, não são os semi-analfabetos, são
extremamente contraditórios ao disporem de minha função em seus textos. Tenho
um complexo proporcional à complexidade de meu uso.
Numa gagueira, produto dos seus problemas psicológicos, a Cedilha (ç) expõe seus conflitos de
maneira objetiva e, logicamente, desesperadamente lenta: sofro de baixa-estima,
afinal ao pronunciar o meu nome (ç), ao invés, do som de “c” o fazem com o de “ss”;
padeço (escutem o som), também, de um desvio de afeto das vogais “e” e “i”, pois, sentem-se preteridas por mim, pois na visão delas, permito
uma convivência harmoniosa apenas com as outras vogais.
Com certa timidez As Aspas
(“ ”) ponderam que se sentem como vírgulas dobradas, invertidas e isso
causa uma discriminação hedionda entre os seus semelhantes, os sinais gráficos, por colocarem em
dúvida as suas opções sexuais. Além disso, enfatizam que o seu uso pelas
pessoas têm duas finalidades: destacar um conteúdo reproduzido literalmente da
boca de outro indivíduo que não o autor do texto ou denotar que a palavra que
está se usando, no contexto, não apresenta significado literal.
Lágrimas duplas escorriam de cada
um dos olhos das Aspas que encharcavam
as suas tristezas profundas, pelas marginalizações impostas.
O silêncio imperou por uns trinta
segundos e o Travessão (-) foi claro
e conciso em seu desabafo: sou um fragmento ínfimo de linha que separa as falas
dos interlocutores e, algumas vezes, sou utilizado para suprimir o parêntese. Sou
um medíocre e um assassino eventual.
Nessa hora, o ambiente que estava
tenso e com os pacientes fragilizados foi conturbado de vez com as intervenções
dos Acentos (´ ^ `) que elevavam
suas vozes, procurando dar ênfase às suas individualidades.
O Psicólogo teve que intervir diversas vezes, organizando as falas
de cada um dos trigêmeos não univitelinos. Os problemas são tantos entre eles que
os caracteres hereditários parecem não vir da mesma gêneses.
Não se entendem, primam por serem problemáticos e sofrem de um complexo
de superioridade triplo, isto é, cada um se acha mais importante do que os
outros. O diagnóstico é elementar: ególatras.
Com os Acentos trêmulos de raiva, apesar do temor, o Trema (¨) foi enfático e definitivo: sou um mero coadjuvante, a
minha existência é relativizada, pois sirvo para que o “u” dos grupos gue, gui, que, qui seja proferido com som
átono.
Houve uma pausa proposta pelo
Psicólogo. No retorno, o Ponto-e-Vírgula
(;) fez uso da palavra: sofro de transtorno bipolar, pois vario entre a Vírgula e o Ponto, e não sou nenhum dos dois. Sou de uma imprecisão ímpar, represento
uma separação mais ampla que a vírgula, e, também, tenho característica do
ponto, mas não a ponto de encerrar um período.
Aproveitando a deixa, o Parêntese () não titubeou em afirmar
que era um sinal gráfico sem paz interior. Os escribas utilizam-me de forma
promíscua. Afinal, sirvo para intercalar, num texto, qualquer indicação ou
informação acessória. Prestem atenção: A-C-E-S-S-Ó-R-I-A, isto é, de caráter
secundário. Prezados, não nego: sofro de
um complexo de perseguição e de nulidade, enquanto partícipe da linguagem.
Os Dois Pontos (:) dirigem as palavras de forma uníssona para o Parêntese e, em claro e bom som, com dicções perfeitas,
dizem: não se abata, existem coisas piores, veja a nossa situação. Servimos
para marcar um suspensão (sensível), isso é coisa de ..... (bem, deixa pra lá),
da voz na melodia de uma frase não concluída.
Usam-nos antes de uma citação, de
uma enumeração e de uma explicação. Temos vários problemas psicológicos e não
negamos, mas, somos machos.
Aquelas ponderações dos Dois Pontos não soaram bem para o Ponto de Interrogação (?) que com uma
voz de falsete, foi logo dizendo: indico uma pausa com entoação ascendente.
Usam-me nas interrogações diretas; combinam-me com o Ponto de Exclamação quando a pergunta também expressa surpresa e
quando existe muita dúvida na pergunta. Agora quero deixar bem claro: sou um
homossexual muito bem resolvido.
O Ponto de Exclamação (!) ao ouvir o comentário do paciente que o
antecedeu, com os lábios trêmulos de indignação, afirmou: não tenho preconceito
nenhum com as escolhas particulares. Agora, não me coloquem numa situação que
repudio, enfaticamente. As forças dos
escritores são poderosas e não tenho condições objetivas para vencê-los,
contudo, sempre protesto à exaustão, quando me utilizam, promiscuamente, com o Ponto
de Interrogação. Quanto ao resto, são
várias as possibilidades de minha utilização nas frases que exprimem espanto,
surpresa, alegria, entusiasmo, cólera, dor, súplica, etc.
A animosidade estava tomando um
vulto não desejado e o Psicólogo
resolveu suspender a sessão, na mesma hora em que o Asterisco recebeu uma ligação das Reticências.
Não dando tempo para os pacientes
se levantarem, o Asterisco (*) comunicou
que As Reticências estavam
aguardando todos os colegas de
infortúnio no bar, embaixo do Consultório.
O Asterisco acabou de forma transversa e subliminar, denotando a sua
razão de existir, que é chamar a atenção do leitor para alguma nota ao final da
página ou do capítulo.
Quando desceram já existia uma
mesa separada pelas Reticências e
com os devidos pedidos de tira-gostos e chopes, em curso.
Acomodados e sorvendo goles
daquela bebida estupidamente gelada, As
Reticências fugindo de suas
naturezas reticentes foram diretas ao assunto: procuramos o Orientador do Ponto (.) que nos clinica e obtivemos
informações preocupantes.
O Orientador, como sabem, tem a
função de fazer análise nos profissionais de Psicologia. Ele nos afirmou que
havia solicitado ao Órgão de Classe a suspensão provisória do registro e,
conseqüentemente, das atividades do Psicólogo
Ponto (.), em razão da crise que ele vem passando. Sem ferir a ética
profissional, aludiu sobre o agravamento dos sucessivos distúrbios psicológicos
do Psicólogo.
O Psicólogo Ponto (.) está sofrendo de uma neurose grave. Neurose,
essa, decorrente das suas tentativas ineficazes de lidar com o seu ego, pois,
não consegue separar quando é “ponto
simples”, “ponto parágrafo” ou “ponto final”- e esses conflitos e
traumas do seu inconsciente exigem um tratamento longo, inclusive,
psicanalítico, com prescrições de remédios com tarjas pretas, de modo a
restaurar sua sanidade plena, deixando-o, portanto, incapacitado para o exercício
da profissão.
O silêncio que sucedeu aquelas
palavras poderia ser denominado de fúnebre.
De repente, escutam aquela
expressão gaguejante da Cedilha: “Como isso é possível?!”
O Ponto de Exclamação ao ouvir aquela indagação que o atrelava ao Ponto de Interrogação partiu de
porradas para cima da gaga.
Termino por aqui, pois, a
confusão não acabou bem.
Padeço de muitos males, inclusive, das
incorreções nas colocações das vírgulas, mas, sei quando devo colocar um “ponto final” nas coisas.

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