segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Urubu fogoso


Chamar aquele lugar de vilarejo era uma impropriedade, de aldeota, vá lá, apesar de certo exagero.

Para chegar à única rua da localidade, denominada de Urubu Fogoso, tinha que atravessar um pontilhão sobre o rio do  Meio que dava nome aquele lugar formado por um punhado de construções toscas que resistiam ao tempo. Pareciam centenárias.

formação daquele exíguo espaço geográfico ocorreu com a chegada de Maria Roxa.

Considerando Maria Roxa um ramo específico de sua árvore genealógica, esse galho cresceu muito e, francamente, como deu galho.

Maria Roxa era mãe de Maria das Graças, que deu a luz a Maria Rubina, que por sua vez procriou Maria Ramona, que gerou Maria das Flores e essa, a Maria do Rosário, que concebeu Maria Maria que deu existência a Maria Genuína. (Os meninos não contam).

Isso sem contar as outras Marias que vieram de origens, de arbustos diferentes. 

Todas putas por necessidade e gosto.

Certamente era a maior concentração de Marias por metro quadrado do planeta e olha que não entram na estatística, em seus devidos retábulos, as diversas imagens de Nossas Senhoras de vários nomes que no fundo são Marias.

Todas as Marias vendiam, além do corpo, bebidas e cigarros para engordarem seus parcos ganhos. No ramo das bebidas alcoólicas existiam diversos tipos de cachaças, no mais, apenas rabos de galo. No segmento dos cigarros existia uma variedade maior: os de palha com fumo de rolo, Imperador, Nobre, Mirage, Corcel, Salem, além de cigarros em retalhos para os menos afortunados.

Continental sem filtro e outros tipos de cigarros curiosos como os com anagramas, maçônicos ou religiosos eram exclusividade dos fazendeiros, políticos, padres e juízes que traziam para complementar seus prazeres, garrafas de uísque, logicamente, importados.

Desde a década de 20, do século passado, a esbórnia era organizada.

Os ricos aliviavam seus instintos bestiais com exclusividade nas terças, quartas e quintas-feiras, afinal, como senhores respeitáveis, o final de semana era sagrado. Ficavam com suas famílias.

A discriminação social até para foder, nesses tempos, fazia-se presente. Os demais clientes, os pobres, não tinham direito a ter tesão naqueles dias da semana e se tivessem, teriam que partir para a ignorância: "sair na mão".

Que negócio complicado da porra!
  

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