Aquele ser nasceu
predestinado a ter uma vida excessivamente atribulada.
Para que não pairasse
quaisquer dúvidas sobre o seu destino, chegou ao mundo arrancado a ferros
(fórceps) e sem a presença protocolar de seu anjo da guarda.
Aquele anjo tinha
diversos registros desabonadores lavrados no Cartório do Céu.
Quando aquela criança
emitiu seus primeiros sons (choros), o anjo bradava a plenos pulmões: “Estão
cerceando os meus direitos de defesa. Exijo a presença de um advogado.
Lembrem-se que estão violando a Constituição Celestial que no seu único artigo
declina sobre a Justiça Divina, portanto, uma cláusula pétrea”.
Os cinco querubins
que prolatariam a sentença, perplexos entreolharam-se, pois eram sabedores da
inexistência de um mísero advogado no Céu.
Foram compelidos
compulsoriamente a cometerem um pecado mais que venial – contrabandearam um
advogado do Inferno.
Para a desgraça
daquele nascituro e felicidade total do anjo da guarda, o advogado era
brasileiro. Acostumado à impetração de ações protelatórias infindas, as famosas
chicanas jurídicas.
Por descuido dos
legisladores celestiais a eventual substituição de um anjo da guarda só poderia
ser efetivada quando a decisão estivesse transitada em julgado.
Resultado: aquele ser
foi o único da espécie humana a não ter a proteção de um anjo da guarda ao
longo de sua existência.
Não declinarei a
dolorosa caminhada daquele individuo marcado pelo infortúnio para evitar um
possível quadro depressivo por parte de eventuais leitores.
Mencionarei apenas e
tão somente a última desdita dele.
Exausto pelo trabalho
contínuo e sem tréguas em seu consultório, resolveu descansar. Foi para a
região serrana do Rio de Janeiro.
Era psicólogo.
Convivia diariamente com a dor, com as aflições, enfim, com a miséria humana.
No seu primeiro dia
de descanso, dos cinco previstos, vestiu uma camisa recém comprada, uma camisa
polo branca, bermuda marrom e sandálias franciscanas e resolveu andar a pé pela
cidade.
Desafortunadamente
esbarrou com um colega que não via desde a época do vestibular.
Não houve tempo para
reminiscências, o colega com os olhos avermelhados e segurando uma pequena
caixa de madeira, o ultimou: “fulano, que bom reencontrá-lo, principalmente
nesse momento de dor. Preciso cumprir o último desejo do meu pai – jogar suas
cinzas no Parque Ecológico”.
Negar aquele pedido
seria uma ofensa, apesar de não ter ido ao enterro dos próprios pais, face ao
pavor que tinha em lidar com a morte.
Chegaram ao local e o
colega pediu que ele segurasse a caixa repleta de cinzas do falecido.
Num choro compulsivo,
o colega pegava um pouco das cinzas e as jogava em direção das arvores e aquele
gesto era acompanhado de um lamento lancinante: “Ai, ai papai”.
Como tudo na vida era
contra aquele individuo, o vento fazia sua parte, trazia de volta parte das
cinzas que ficavam impregnadas na sua camisa branca.
Aquele ritual
repetiu-se por cinco vezes: “Ai, ai papai” e mais cinzas na camisa polo.
Para não alongar,
depois daquela ritualista, pegou o carro e retornou para casa.
Chegando, tirou a
camisa com partes do papai (do outro) e colocou próxima à máquina de lavar.
No outro dia deixou o
consultório mais cedo e ao adentrar em casa foi logo indagando: ”fulana, deixei
uma camisa para lavar, lavou?”
Obteve como resposta
aquilo que não queria ouvir: “Doutor, aquela camisa estava um nojo e não
titubeei, joguei fora”.
Pálido, desabou no
sofá e pensou: “Não acredito. Papai foi pro lixo. Ai, ai”.

Paulao, essa foi tenebrosa.....
ResponderExcluirJoca,
ResponderExcluirCom o avanço da idade, a mente procura dados do passado e na minha adolescência o humor negro fazia-se presente. Tentando reencontrar com esse período escrevi essa excrescência (agora, a idéia foi excelente, o problema foi não desenvolvê-la adequadamente).
Agradeco pela atenção do comentário.
Paulao