sábado, 29 de março de 2014

Ai,Ai, Papai


Aquele ser nasceu predestinado a ter uma vida excessivamente atribulada.
Para que não pairasse quaisquer dúvidas sobre o seu destino, chegou ao mundo arrancado a ferros (fórceps) e sem a presença protocolar de seu anjo da guarda.
Aquele anjo tinha diversos registros desabonadores lavrados no Cartório do Céu.
Quando aquela criança emitiu seus primeiros sons (choros), o anjo bradava a plenos pulmões: “Estão cerceando os meus direitos de defesa. Exijo a presença de um advogado. Lembrem-se que estão violando a Constituição Celestial que no seu único artigo declina sobre a Justiça Divina, portanto, uma cláusula pétrea”.
Os cinco querubins que prolatariam a sentença, perplexos entreolharam-se, pois eram sabedores da inexistência de um mísero advogado no Céu.
Foram compelidos compulsoriamente a cometerem um pecado mais que venial – contrabandearam um advogado do Inferno.
Para a desgraça daquele nascituro e felicidade total do anjo da guarda, o advogado era brasileiro. Acostumado à impetração de ações protelatórias infindas, as famosas chicanas jurídicas.
Por descuido dos legisladores celestiais a eventual substituição de um anjo da guarda só poderia ser efetivada quando a decisão estivesse transitada em julgado.
Resultado: aquele ser foi o único da espécie humana a não ter a proteção de um anjo da guarda ao longo de sua existência.
Não declinarei a dolorosa caminhada daquele individuo marcado pelo infortúnio para evitar um possível quadro depressivo por parte de eventuais leitores.
Mencionarei apenas e tão somente a última desdita dele.
Exausto pelo trabalho contínuo e sem tréguas em seu consultório, resolveu descansar. Foi para a região serrana do Rio de Janeiro.
Era psicólogo. Convivia diariamente com a dor, com as aflições, enfim, com a miséria humana.
No seu primeiro dia de descanso, dos cinco previstos, vestiu uma camisa recém comprada, uma camisa polo branca, bermuda marrom e sandálias franciscanas e resolveu andar a pé pela cidade.
Desafortunadamente esbarrou com um colega que não via desde a época do vestibular.
Não houve tempo para reminiscências, o colega com os olhos avermelhados e segurando uma pequena caixa de madeira, o ultimou: “fulano, que bom reencontrá-lo, principalmente nesse momento de dor. Preciso cumprir o último desejo do meu pai – jogar suas cinzas no Parque Ecológico”.
Negar aquele pedido seria uma ofensa, apesar de não ter ido ao enterro dos próprios pais, face ao pavor que tinha em lidar com a morte.
Chegaram ao local e o colega pediu que ele segurasse a caixa repleta de cinzas do falecido.
Num choro compulsivo, o colega pegava um pouco das cinzas e as jogava em direção das arvores e aquele gesto era acompanhado de um lamento lancinante: “Ai, ai papai”.
Como tudo na vida era contra aquele individuo, o vento fazia sua parte, trazia de volta parte das cinzas que ficavam impregnadas na sua camisa branca.
Aquele ritual repetiu-se por cinco vezes: “Ai, ai papai” e mais cinzas na camisa polo.
Para não alongar, depois daquela ritualista, pegou o carro e retornou para casa.
Chegando, tirou a camisa com partes do papai (do outro) e colocou próxima à máquina de lavar.
No outro dia deixou o consultório mais cedo e ao adentrar em casa foi logo indagando: ”fulana, deixei uma camisa para lavar, lavou?”
Obteve como resposta aquilo que não queria ouvir: “Doutor, aquela camisa estava um nojo e não titubeei, joguei fora”.
Pálido, desabou no sofá e pensou: “Não acredito. Papai foi pro lixo. Ai, ai”.

2 comentários:

  1. Joca,
    Com o avanço da idade, a mente procura dados do passado e na minha adolescência o humor negro fazia-se presente. Tentando reencontrar com esse período escrevi essa excrescência (agora, a idéia foi excelente, o problema foi não desenvolvê-la adequadamente).
    Agradeco pela atenção do comentário.
    Paulao

    ResponderExcluir