A luz mortiça enfraquecia ainda mais ao ser refletida no espelho, pelo sofá que impedia na sua plenitude a passagem daquele raio solar agonizante.
Aquela cabana de madeira ficava num promontório, onde os ventos com suas forças de intensidades variadas e de sons que pareciam músicas descompassadas eram inclementes, assim como as ondas do mar que fustigavam a parte inferior daquela montanha, de forma contínua e incessante.
Na cozinha aquele senhor arrastava os chinelos com seu andar claudicante, acrescido pela irregularidade do chão, à procura de um copo d’água para saciar sua sede.
Estava em estado febril, com uma coceira espalhada pelo corpo inteiro, decorrente provavelmente de seu estado emocional, pois estava desempregado há duas semanas daquele emprego que sugara anos de sua vida, na única farmácia da aldeia.
Foi para sala, abriu as cortinas das janelas e momentaneamente olhou para o céu com o descaso, pois a falta de esperança massacrava seu ser e o impedia de registrar aquele espetáculo de estrelas brilhantes e da luz da lua que inundava o hemisfério sul.
Abriu o livro que estava abandonado há meses sobre a mesinha e tentou avançar na leitura postergada, mas o seu estado psicológico não suportou passar de cinco páginas, afinal o personagem central lutava entre a vida e a morte, em decorrência de uma doença insidiosa.
Acompanhado da solidão, que é péssima companheira, entrou num processo de cartase, de libertação de suas emoções e sentimentos.
As horas avançaram e acabou dormindo.
No dia seguinte começou a sua peregrinação pela busca de um emprego improvável.
Depois de meses de buscas acabou na sarjeta, transformando-se num mendigo compulsório, oficial, graças à política criminosa implantada no país sobre o direito à aposentadoria.
Nas regras vigentes à época de sua entrada no mercado de trabalho hoje estaria usufruindo da aposentadoria, mas na legislação atual faltam cinco infindáveis anos.
Resultado: perdeu os anos de recolhimento à Previdência Social, perdeu a dignidade humana.
Enquanto isso continuam as apropriações indébitas, os roubos descarados, as locupletações, as impunidades desses lavradazes da coisa pública.
Isso não é um país. É um espaço geográfico que foi apropriado por uma cúpula de crápulas, de cínicos e de calhordas.
Que negócio!
Há 15 anos

Depois de breve ausência, retorno a este blog para saciar minha sede de boas leituras e português impecável!!! Delicia pura ler suas crônicas!!! Mais uma vez Parabéns!!!
ResponderExcluirCatia,
ResponderExcluirFico feliz pelo seu retorno a esse blog desqualificado e reitero a sua bondade pelos comentários.
Abraços,
Paulo