quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Pense aí.

Foi gerado numa noite onde os ânimos estavam arrefecidos pelos altos teores alcoólicos ingeridos pelos pais, depois de um dia de ofensas mútuas, onde os ressentimentos afloraram e cresceram de forma quase insustentável.

Aquela criança, ao completar cinco anos, foi abandonada pelo pai. Cinco anos depois, foi a vez de a mãe abandoná-lo.

Passou anos associando o número cinco como azar, hoje é seu numeral de sorte.

Aos dez anos, então, começou sua desdita.

Relatar suas privações seria uma homenagem descabida à miséria e ao abandono.

Era um menino esperto e como!

A herança que recebeu dos pais, a seu sentir, era o nome: HERIVELTO. Ao ouvir seu nome seu ser era envolvido por uma felicidade inigualável produto da sonoridade das sílabas HE-RI-VEL-TO.

Conseguiu a proeza de jamais receber um apelido, provavelmente pela sua postura perante aos mais velhos que às vezes o chamavam de menino e ele, de forma peremptória reagia: “meu nome é HE-RI-VEL-TO, senhor”. Com os de sua idade resolvia na base da porrada.

Cresceu matreiro. Contudo, recebeu como massa falida, pois isso não é herança genética, o alcoolismo.

Sobrevivia à base de biscates. Era pau pra toda obra. A qualidade... bem ..., a qualidade era mais que duvidosa, ao revés do profissionalismo do pai na arte de construir barcos, o que proporcionou-lhe a alcunha de Zé Pirata.

No mês aziago de agosto recebeu a incumbência de retirar cocos. No meio da tarefa deparou-se com um pé de coco que só não era maior do que suas necessidades. Vacilou, mas tinha que cumprir a empreitada. Subiu, subiu e quando estava a uns 10 metros de altura a lei da gravidade impôs sua autoridade.

A queda, além de outras escoriações, provocou fraturas expostas no seu braço direito.

Sofreu estendido no solo pátrio aguardando a chegada do SAMU que levou 40 minutos.

Abro um parêntesis para um comentário desairoso, mas saltou-me aos olhos o total da espera daquele infeliz – o mês de agosto é o oitavo mês do ano, que multiplicado pelo fatídico número cinco totaliza quarenta – fecho o aludido sinal gráfico, com as devidas vênias.

Quando o socorro chegou, o médico assistindo aquela cena de fraturas graves, disse:

“Pense (e, Herivelto não o deixando complementar aquela frase que terminaria “na besteira que você arrumou”.)

Retrucou, imediatamente: ”Pense aí na dor que estou sentindo”.

Resultado: passou por três cirurgias; passou sete meses com uma armadura metálica no braço presa por parafusos; meses de fisioterapias e finalmente passou pelo dissabor de constatar que o seu braço ficou inutilizado.

Depois dos meses acima mencionados, retornou ao vilarejo que vivia.

E o seu recomeço foi o fim da sua única herança (Herivelto), da sua única e genuína felicidade da vida. Passou a ser chamado por todos de PENSE AÍ.

Bem, com a falta de bom senso que me caracteriza, adentro nessa história para externar a minha reflexão: “Agora pense ... Pense aí - que vida azarada da porra.”

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