Um Casamento
Casaram sob o protesto de ambas as famílias e como não fosse o bastante teriam a rejeição, também, dos títulos protestados, na figura dos seus credores caso soubessem desse matrimonio, pois, se no campo individual as diversas investidas para receber foram em vão, o que esperar então da união daqueles dois devedores contumazes.
Foram viver na periferia de um subúrbio da cidade.
Ele acordava às 04:30 h e caminhava mais de 20 minutos sobre uma estradinha de terra esburacada, no escuro, pela inexistência de iluminação pública, para chegar à estação de trem onde invariavelmente, mediante diversos artifícios, burlava o sistema e não pagava a passagem.
O emprego de escriturário no centro da cidade era de uma remuneração indigna e após o seu almoço costumeiro (pão com banana), dirigia-se à banca de jornais da esquina e filava o caderno de classificados à procura de empregos.
Naqueles anos 70, do século passado, empregos existiam.
Em menos de quatro anos trocara de emprego seis vezes, sempre na busca de melhorias salariais, mas sempre convivendo com ligações diárias da esposa para fiscalizá-lo nesse período. Pedira demissão de cinco empregos e fora demitido de outro por conta da esposa.
A razão da demissão foi em função da presença da esposa no seu trabalho, onde provocou uma baixaria indescritível com a recepcionista, uma moça tímida, recatada que se dirigia a todos no escritório sempre com o pronome de tratamento senhor, de forma a manter o desejado distanciamento das pessoas para evitar possíveis intimidades.
Aquela esposa de comportamento reprovável nas suas atitudes e desclassificada no seu linguajar desqualificou a recepcionista, esgotando todo seu estoque de palavras de baixo calão (o que veio provocar uma depressão profunda numa entidade denominada por Pomba Gira especialista no uso de palavras obscenas), acusando-a de ser amante de seu marido.
Com aquela confusão, todos do escritório, inclusive o chefe, vieram ao socorro da recepcionista e expulsaram à força aquela esposa descontrolada e desclassificada.
Tentaram acalmar a colega de trabalho de todas as formas. Ela chorava de forma incontida e o seu pensamento recorrente era: “acontecer isso, logo comigo que gosto tanto daquilo que os homens gostam: de mulheres...”.
Numa dessas sortes do destino, certo dia ao caminhar pelo Passeio Público deu de encontro com um antigo colega de escola. Da emoção do encontro e dos assuntos triviais, o colega declinou que ocupava um alto cargo numa empresa de grande porte.
Resultado: com o pistolão do colega foi contratado para um cargo que quintuplicava o seu último salário.
A vida melhorou. Mudaram-se para um local decente no subúrbio e tiveram condições de mobiliar a casa e cometer alguns excessos.
As relações interpessoais que estavam abaladas melhoraram e deram vazão aos seus primeiros desejos, a de terem quatro filhas e tiveram quatro filhos.
Com intuito de fazer carreira na empresa fez vestibular para uma faculdade de décima-quinta categoria e passou.
Com essa atitude a sua situação em casa transformou-se num lugar destinado ao castigo eterno, um verdadeiro inferno. A esposa reclamava de tudo: do horário que chegava; da inexistência de tempo para a família; mas o pior mesmo foi o aumento exponencial do ciúme da esposa com suas consequências.
O resultado daquela dupla jornada (trabalho e faculdade) foi um acúmulo de cansaço e com o espírito combalido e a carne fraca, arrumou uma amante.
A sua existência a partir daquele convívio paralelo foram os melhores de sua vida.
A esposa percebendo o espaçamento entre as conjunções carnais e a mudança no comportamento do marido não teve dúvidas: esse filho de uma puta tem uma amante.
Depois de dois meses de incertas na faculdade obteve a certeza absoluta de que fazia parte de um triangulo (isósceles) amoroso.
Pela primeira vez na vida controlou-se e regressou ao lar já com uma idéia fixa.
O marido chegou tarde como de costume; tomou banho e jantou assistindo um telejornal.
Depois foi para o quarto e deitou-se. Ela chegou logo depois.
Quando ele, por força do hábito desejou boa-noite, ela enfiou a mão debaixo do travesseiro e sacou um trinta e oito e colocou o cano na cabeça dele.
E começou a sessão de xingamentos, agressões, intercaladas sempre com a afirmação de que ele tinha uma amante. Tem ou não tem seu filho da puta? Eu vou te matar agora seu puto.
O pavor tomou conta de seu corpo ao sentir o revolver engatilhado nas suas têmporas. Tremia, suava frio, negava com uma gagueira extrema, sabendo da capacidade da esposa em atirar.
Ela insistia na pergunta e nos xingamentos. O desespero, o medo dele chegou ao ponto de ter uma completa distensão dos músculos do seu esfíncter anal, conjugado com uma indesejada incontinência urinária, em outras palavras, se cagou e se mijou todo.
Sentindo a presença da morte iminente, sem mais nenhum poder de convencimento e verificando o aumento na escala de loucura da esposa e aquela arma pronta a disparar, tentou a última argumentação.
Aqui abro um parêntese (provavelmente, as palavras que ia proferir foram sopradas em seu ouvido pela chegada inesperada do seu anjo de guarda que era uma figura sem a mínima responsabilidade pelo fato de não cumprir a sua missão de acompanhar aquele homem durante toda a vida) – fecho, portanto, o aludido sinal gráfico.
E agarrado nos fios tênues da esperança, proferiu gaguejando a seguinte frase: “Por favor, não atire porque o barulho vai acordar as crianças”.
Naquela noite as crianças tiveram o sono dos justos.
Que negócio!
Há 15 anos

Paulão, vc agora resolveu deixar roxo de ciúme o Nelson Rodrigues? Cara, que viagem.....
ResponderExcluirJoão,
ResponderExcluirSomente você para traçar esses paralelos e incentivar-me. Contudo, para contradizer o texto eis uma frase de Nelson Rodrigues que tem a seguinte dicção: "Um filho, numa mulher, é uma transformação. Até uma cretina quando tem um filho melhora."
Essa do meu texto, apesar dos quatro filhos, piorou.