O olhar era ausente. O sentimento e a sensação das perdas vivenciadas e agora esmaecidas pelo distanciamento do tempo retornam com a mesma intensidade daquela época quando revisita o passado.Vêm à lembrança os 20 anos (ah, os cruéis e distantes vintes anos!). Não é uma volta à juventude do corpo, mas sim, um retorno aquele período com seus vícios e equívocos próprios que destoam da atualidade.
A catarse é imediata. Chega com a lembrança do bolso da calça sempre desqualificado pela quase ausência de recursos monetários, mas com a presença definitiva de um número razoável de fichas telefônicas para as ligações prementes, nos orelhões públicos. Afinal, naquele tempo, o telefone próprio inexistia na sua relação de bens pela exorbitância do preço que aviltava os seus sonhos e mutilava as suas parcas ilusões do cotidiano.
E o curso de datilografia? Esse diploma era pré-requisito para a totalidade dos empregos.
E a máquina de escrever era manual.
Batia-se o original com as cópias necessárias, intercaladas com carbonos e qualquer erro na digitação causava um transtorno monumental para a devida correção. Era um processo meticuloso e artesanal, pois, apagava-se o equívoco com a ponta da borracha - do original às cópias - e como não fossem suficientes essas torturas diárias, as pontas dos dedos ficavam impregnadas com as marcas das tintas desprendidas dos carbonos como peça acusatória cabal da falha cometida.
Depois, veio a máquina elétrica – que evolução dos diabos, meu Deus! (com a devida vênia, Senhor).
De repente aquele indivíduo absorto nas suas memórias começa a salivar e sentir o gosto do passado, na laranjada americana, no crush, no grapette, nos milk-shakes honestos do antigo Bob´s, no incomparável Eski-bom e Ki-Bamba vendidos nas antigas e saudosas carrocinhas amarelas da Kibon, espalhadas nas esquinas da Guanabara...
Acende um cigarro, hábito antigo e vício perpétuo, e relembra do sabor daquele cafezinho feito em coadores enormes de panos. Não havia miséria no pó utilizado e a saída para alguns que não conseguiam degustar aquele café encorpado era pedir o famoso “carioca” (o café servido com acréscimo de um pouco d’ água fervente, ou fria - a gosto do freguês - para torná-lo mais fraco).
Do sentido gustativo para a lembrança visual é um pulo.
E surge em sua mente a figura imponente do Sheik, vestido a caráter, de turbante e de roupas inteiramente brancas com sua voz tonitruante a fazer propaganda de suas guloseimas.
E aquele mendigo esguio que dormia no Aterro do Flamengo que desfilava sempre acompanhado de seus vira-latas, sempre asseados e em número nunca inferior a dez, amarrados em cordas e até em barbantes reforçados? Que figura respeitável por mais paradoxal que seja tal afirmativa.
E o famoso ônibus 184 (Estrada de Ferro – Laranjeiras)? Onde na hora do rush, uma loira estonteante ficava friccionando seu corpo nos corpos dos homens que viajavam em pé, desviando a atenção para que o comparsa batesse as carteiras dos incautos excitados.
Bons tempos aqueles dos punguistas... Era uma arte, o ato do furto.
E as cartas recebidas? Era um verdadeiro ritual antes de abri-las. O primeiro passo era descobrir os remetentes pelas caligrafias; o segundo era descobrir a data da postagem que compunha o carimbo dos Correios que encharcado, maculava o selo e o envelope, com intuito de avaliar o tempo da chegada da resposta, ainda por escrever. Cumprida essa ritualística, aí sim, abriam-se as cartas.
Hoje com o correio eletrônico (“e-mail”), além do recebimento imediato, sem a possibilidade de um mísero extravio, inexiste a possibilidade de analisar as caligrafias dos remetentes e constatar as possíveis letras trêmulas provocadas pela paixão, pela tensão ou decifrar os garranchos dos despossuídos da precisão da escrita.
É... O mundo perdeu os sentidos sutis de humanidade.
Aquele ser, num gesto impulsivo passa a mão nos cabelos grisalhos e uma lágrima solitária corrói uma de suas faces e o amargor na boca e na alma fazem-se presentes.

Achei, no fundo do meu armário, minha máquina de escrever Olympia, fabricada em 1943; não funcionou, pois o cabo de tração do carro está rompido; vou na Rua República do Líbano, lugar onde sempre comprava material eletrônico para consertar rádio e comprar cabinho de acionamento do dial, o mostrador do rádio. Esse cabinho verde é o mesmo da máquina. Depois vou me lembrar das aulas de dactilographia que tive na Escola Remington do Rio de Janeiro, na Rua Dr. Pache de Faria, no Méier, onde tomei muita reguada no pescoço quando tentava olhar as teclas ou usar a borracha para enganar a instrutora, mulata enorme de saia na canela e cabelo todo armado. E vou dactilographar uma missiva, pois carta é muito sem graça e, pasme, vou lhe enviar pelo correio. Ela, a missiva, irá saudá-lo da seguinte forma: Botafogo, tanto de tanto de doismilnoventosetanto, Querido amigo, espero que essa vá encontrá-lo gozando da mais perfeita saúde...
ResponderExcluirAguarde!
E hoje, em sua homenagem, vou tomar uma Laranjada America, naqueles copos cônicos de papel, lançados malabaristicamente em suportes de alumínio, na esquina de Primeiro de Março com outra que eu não sei o nome
ResponderExcluirJorge Luiz,
ResponderExcluirAguardo a sua missiva datilografada na velha e saudosa Remington. Certamente, as lembranças de uma passado pretérito retornarão.
Ficarei feliz.
Ao sorver a laranjada americana, solicito que jogue umas gotas no chão, como fazem os bebedores de pinga (no caso deles, o gesto é uma saudação aos santos), no meu caso, caso cumpra o meu pedido, entenda que será uma saudação a um pobre diabo aposentado.
Abraços do amigo
Paulo que saudade dos tempos que nós eramos inocentes e saboreavamos sem saber a juventude inqueta no pensar do futuro.
ResponderExcluirQue saudades!!!!!! da nossa inocência....
Um forte abraço Faria
Faria,
ResponderExcluirJunto com a inocência com o passar do tempo, também, a saúde e essa perda, indubitavelmente, é muito pior.
Abraços