O encontro foi inevitável naquele espaço que insistiam em denominar de praça.Era uma provocação. Provocação aos dicionaristas que definem o verbete como lugar público e espaçoso, o que contrastava com aquele espaço exíguo, disforme e privado.
A única cobertura vegetal era uma decrépita amendoeira cujo vigor exauriu-se há anos e como não fosse suficiente era obrigada a suportar, no limiar de suas forças, as poucas folhagens impregnadas com a poeira dos tempos atuais.
Sentaram no mesmo banco carcomido pelas intempéries dos cotidianos, mas em extremidades opostas.
O Coisa Ruim, antes de iniciar a conversa que a priori sabia ser áspera e virulenta, pigarreou e praguejou contra aquela cigarrilha vagabunda, afinal sua situação começara a sofrer revezes que refletiram na sua qualidade de vida e há anos não degustava aquele charuto cubano de produção limitada e personalizada feito nas coxas das cubanas. Um primor de fumo e de lascívia.
Com seu vozeirão característico, apesar da bronquite asmática, indagou: seu aspecto não é dos melhores hoje, hein! Deus?
Deus não respondeu e com um gesto de desdém, acompanhado da fixação de seu olhar tentou intimidar o seu opositor.
O Coisa Ruim gargalhou e fulminou: essa sua qualidade de olhar canhestro é que construiu esse mundo miserável, desigual, desgraçado...
Deus irritado vociferou: em seis dias criei o universo e todos os seres vivos....
Foi bruscamente interrompido pelo outro que afirmou: você criou o infinito, apenas para as pessoas se perderem nas suas insignificâncias e isso denota que a sua propalada onisciência está limitada a um único conhecimento, o do mau-caratismo.
Deus perdeu totalmente o controle emocional e aos berros extravasou a sua ira, aos brados: não blasfeme!
O Coisa Ruim mantendo-se impassível e sem rancor, respondeu: quando os homens perceberem que os seus erros e suas maldades foram atribuídas a mim de forma injusta e cruel; quando entenderem que a minha atuação foi sempre pautada para orientá-lo e induzi-lo a retificar os seus desacertos, aí sim, irão compreender que o estigma de minha figura é mais uma obra equivocada construída por sua mão torpe e compreenderão o que realmente sou: a sua consciência. Você é simplesmente, repito, simplesmente, uma grande farsa.
Foi o bastante. Deus partiu a socos e a pontapés contra o Coisa Ruim.
O ambiente foi tomado por apitos estridentes e surgiram brutamontes de todos os lados que os separaram, com certa dificuldade e os vestiram com as devidas camisas-de-força.
Foram carregados imobilizados ao ambulatório e receberam doses cavalares de calmantes.
O diretor do manicômio chamou o psiquiatra e o admoestou por sua conduta irresponsável de permitir o contato entre aqueles dois inimigos figadais.
Um silêncio profundo e angustiante fez-se presente.
O psiquiatra abandonou a sala com um pensamento destruidor: a religião foi criada para que a insânia não prosperasse e que a esperança permeasse as nossas vidas, mas desgraçadamente foi tudo em vão. A insanidade do mundo não tem cura, assim como não tem aqueles dois miseráveis que assumiram as personalidades do bem e do mal, talvez numa tentativa de buscar a esperança nas suas desesperanças.

Não sei mais ou talvez nunca soubesse de onde vem essa idéa dicotômica de que existe um bem e existe um mal; e que a eterna disputa entre os dois cuminaria com a vitória do Bem sobre o Mal. O que me leva a um pensamento,no mínimo, preocupante. Se o Mal deixasse de existir, se o Sete-Pele não tivessa uma bandeira de luta, ele deixaria de existir mesmo sem cheiro de enxôfre. E aí só existiria o Bem, onipresente, preenchendo todas as covas de dentes e frestas de calçadas portuquesas cariocas. Mas com o tempo algum Bem não estaria tão bem e começaria a constratar com o Bem Vitorioso. Isso poderia ficar cada vez mais constrastante a ponto de o Bem ter que facear um outro Bem, um bem de menos valia que poderia ser classificado como o Mal. Talvez seja assim mesmo. Por isso é que vão existir sempre pobres, vão existir sempre estelionatários, vão existir sempre infelizes. Pois que, por mais que você o Bem pratique, bem cedo ou bem tarde o Mal florescerá, até mesmo como um apêndice maligno do Bem Maior
ResponderExcluirJorge Luiz,
ResponderExcluirAntes de qualquer comentário sobre o seu registro, enfatizo que você deveria escrever para alentar a todos nós,pois, as suas observações representam um texto definito para reflexões.
Essa maldita dicotomia é que levou os personagens do texto a enlouquecerem (de forma implícita) diante da falta de esperanças na vida. Um materializou a loucura no bem, e o outro, no mal.
O que é constratar?
ResponderExcluirJorge Luiz,
ResponderExcluirJunto-me à sua ignorância sobre a palavra constratar. Talvez, a letra "s" estava brigada com a letra "a" e foi procurar conforto com a letra "n" e com sua impetuosidade deve ter gerado um neologismo.
Consta no texto, a palavra "contrastava" que deriva de "contrastar" que significa: opor-se a; ser contrário.
Aguardo seus comentários sobre a tese que levantei sobre a impulsividade da letra "s", acima.
Abraços,