terça-feira, 10 de novembro de 2009

Tormentas


Existia, naquela ilha perdida na vastidão oceânica, uma estação de metereologia que, através de um consórcio promovido por diversos países e por várias companhias de seguros, permitia a investigação dos fenômenos atmosféricos.

Dotada de equipamentos de última geração, com especialistas de rara competência, acompanhava as mudanças de humor da natureza, com intuito de transmitir, aos diversos navios que passavam por uma área extensa, a previsão, a antevisão do tempo.

Nos últimos 10 minutos as atividades, naquela estação, foram intensas. Concluídas as análises, as informações foram transmitidas imediatamente, sobre a chegada de um violento temporal, nas próximas oito horas.

Os navios que podiam alterar seus cursos, para livrarem-se da tormenta, o fizeram. Outros seriam colocados à prova, pela impossibilidade de evitarem o fenômeno.

Os ilhéus receberam as informações com a mesma presteza das repassadas aos navios, para tomarem as devidas providências, produtos de intensivos cursos e treinamentos sobre a questão.

Agora, tudo estava limitado a uma questão de tempo, tanto o cronológico quanto o atmosférico.

As providências começaram a ser executadas prontamente pelos habitantes daquela ilha, exceção feita a um único insulano.

Morava, isoladamente, num promontório, a idade já avançada, com suas mazelas permanentes, produtos da dilação do tempo vivido.

Era só. Sua esposa falecera há mais de duas décadas e seus filhos, pescadores, foram vítimas das águas traiçoeiras do oceano, que não tiveram a grandeza, ao contrário do tamanho das ondas, de devolverem os seus corpos à terra.

Escutara a advertência pelo rádio, e era morador de um local adverso a uma proteção mais adequada, pois os ventos seguiam sempre aquela direção com mais intensidade. Tinha apenas, como uma resistência insana, a sua tosca moradia.

Sua vida era uma tormenta. Não tinha uma mísera razão para viver. Sua felicidade fora abruptamente extirpada, pela perda dos seus.

Os seus parcos sonhos, comparáveis somente às suas aspirações sobre os bens materiais, transformaram-se em pesadelos profundos e violentos, semelhantes à fúria atmosférica que se anunciava.

Cumpria sua rotina diária, sem preocupação.

A crise da natureza estava preste a compartilhar a sua ira, a sua revolta, com os ilhéus.

Reflexivo, o velho acendeu seu cachimbo e sentou-se naquela cadeira de balanço, cujos movimentos peculiares não traziam nenhum conforto ao seu corpo frágil e cansado. Ao contrário, aquele movimento oscilatório, promovido pelo leve movimento do seu corpo, embalava sua mente com os pensamentos, sempre recorrentes, sobre a infelicidade de não conviver mais com os seus.

Concluía que os seres humanos não eram livres, mas pertenciam sempre aos outros. Os desejos, as vontades, os sonhos, nunca poderiam ser unilaterais, individuais, pois pertenciam ao conjunto das relações interpessoais.

A paz interior, as alegrias, os desejos, dependiam da vivência com os seus semelhantes.

Para ele, o ato de existir e a razão de viver não cabiam na existência medíocre de um indivíduo, mas deviam ser partilhados. Do contrário, o homem convertia-se numa ilha, idêntica àquela em que ele vivia, premida pelas ondas, açoitada pelos ventos e encharcada pelas chuvas, resultantes, por analogia, do temperamento egocêntrico das pessoas, que cobram sua maneira de ver, sentir e reagir, diante do mundo e das coisas.

Seu pensamento é interrompido pela mudança brusca da natureza. O céu enegrece, os ventos aumentam de intensidade, as descargas elétricas intensificam-se, nunca sozinhas e sempre acompanhadas da solidariedade dos relâmpagos e trovões.

Em frações de segundos, sua mente registra o caminho tortuoso de um raio, tal qual fora a sua estrada da vida, que acabara de existir pela descarga recebida.

Na condição de espírito, atravessa aquela desordem da natureza de forma incólume e, tal qual em sua vida terrena, dirige-se para um destino impreciso.

Nota: não atribuo o devido crédito ao autor da imagem por desconhecê-lo.

6 comentários:

  1. Acho que o Ministro de Minas e Energia, se ler esse texto, vai descobrir a causa do apagão sul-americado de 10 de novembro de 2009...
    Cuidado com os homi de preto...

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  2. Mania de pensar,

    Ele não o fará, pois, a natureza intrínseca do aludido ministro é furtar às vistas para a realidade.
    Seu campo de ação é disfarçar, encobrir, ocultar, não revelar, não enunciar absolutamente, nada.
    Ele personaliza o apagão das virtudes.
    Perdi as esperanças até nos homens de preto, pois, a insânia chegou ao ponto do bode não querer dar bode.
    Abraços

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  3. A perda, vide o personagem do seu texto, dos seus familiares próximos deve ser um golpe cruel e fatal.
    Suportar essa dor é inimaginável e muitos não suportando tal perda são levandos à loucura ou a desistência do viver.

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  4. Hasta Las Nubes,
    Concordo. É uma perda desumana. Suas dores, seus gritos de sofrimentos são inaudíveis.
    É um processo estúpido no ato de viver.
    O personagem do texto vai ao limite de sua perda.
    Convive com os fantasmas de suas perdas por anos, contudo, as dores das ausências o aniquilam e decide acabar com seu sofrimento inominável, escolhendo aquele fim.
    Abraços,

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  5. Há diversas formas de morrer...e sem dúvida, o não encontrar sentido para continuar a VIVER, após tantas perdas (o que é compreensível) é uma delas...a dor infinda deste homem, encontra apoio no vazio deixado pelos entes queridos levados pelo Senhor de tudo e todas as coisas...e dando cabo a própria vida, talvez este homem tenho encontrado enfim o alívio ao fardo tão pesaroso que carregou em seus tristes anos de vida...ou seria morte?

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  6. Catia,
    As suas considerações são todas pertinentes, mas o personagem, provavelmente, vivênciou a morte em vida, pelas perdas sofridas, e a definitiva que o absolveu das penas imputadas pela sordidez daquela sua vida.
    Agradeço pelos comentários.
    Paulo Roberto

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