terça-feira, 17 de novembro de 2009

Amnésia

Trabalhava numa multinacional, como advogado e, diga-se de passagem, era um excelente profissional na área tributária.

Era um retrato típico do bom baiano, fala mansa, com o sotaque indefectível que não traía suas origens, com o característico traço manemolente do andar, calmo, sereno.

Figura impagável, os horários eram sempre para serem descumpridos. Requintado no vestir, exalando um perfume característico, agora o hálito denunciava um misto de uísque com pastilha de hortelã.

O hábito de beber fazia concorrência com as mulheres. Era, enfim, um alcoólatra requintado: - bebida, só importada!

Era raro o dia que, ao final do expediente, aquela dúvida atroz não surgia: - onde deixara o carro?

A perda parcial da memória tinha origem entre a tampa e o fundo da garrafa.

Às vezes, levava até dois dias para encontrá-lo, em um dos diversos estacionamentos que utilizava. Sem apoquentação de sua parte, pegava um táxi e seguia seu rumo.

A procura, que ficasse para o dia seguinte! Assim era o Pimentel.

Naquele ambiente, aparentemente austero, uma trama desenrolava-se, já há alguns meses, nas mentes pervertidas de seus colegas: - a troca de paletós.

Explico:
- Havia outro advogado, de menor estatura e mais franzino que Pimentel, adjunto do Chefe do Serviço Jurídico, que possuía um terno idêntico ao do baiano, de uma estampa incomum.

O dia ansiosamente aguardado chegara, e estavam prontos para a prática da travessura.

O adjunto saíra para uma reunião interna, deixando o paletó no encosto da cadeira. Um dos elementos do grupo chamara o Pimentel para tomar um cafezinho e, em frações de segundo, a troca se efetivara.

Na hora do almoço Pimentel, o baiano, vestira atabalhoadamente o paletó, sentindo certo desconforto. Porém, tivera uma série de questões a resolver, e o incômodo fora o que menos contara.

Dirigira-se à agência bancária, na Rua Senador Dantas, e entrara no banco onde era correntista, instituição financeira esta que não mais existe. Sacara o talão de cheques e preenchera a quantia desejada, assinando, logicamente. O caixa, que era seu antigo conhecido, pois era cliente de tempos remotos da agência, não titubeara, pagando a quantia estipulada.

No corre-corre, para cumprir outras obrigações, sentira a manga mais curta. Entretanto, atribuíra tal fato à pressa, que era incompatível com seus hábitos, mas exceções ocorrem.

O adjunto, retornando da reunião, ao vestir o paletó, de pronto sentira alguma coisa errada: - o mesmo estava mais folgado e comprido.

Colocara a mão na parte interna do mesmo, à procura de sua carteira e do talão de cheques e, para seu espanto e indignidade, os documentos eram do Pimentel, assim como o talão.

O ácido clorídrico esguichara em suas entranhas, tanto pela fome, como pelo estado de ira.

Por volta das 15:00 h chegara o Pimentel, com sua pachorra característica, tendo-se surpreendido com o descontrole do adjunto, indivíduo facilmente irritável, mencionando sobre a troca absurda dos paletós.

Pimentel, sem provocar alterações em seus neurônios, células fundamentais do tecido nervoso, com propriedades de excitabilidade e condutibilidade, mantivera-se impassível diante do fato, pois o álcool em excesso embotara, sensivelmente, sua capacidade de reação.

A indignação do adjunto tornara-se de uma imensidão polar ao escutar, do Pimentel, que ele sentira um imenso desconforto com o paletó, mas não houvera dado conta de uma troca, impensável, do mesmo. O adjunto chegara próximo a um insulto cerebral quando fora comunicado que ele, Pimentel, sacara dinheiro no banco, evidentemente a mesma instituição onde ambos tinham contas.

Afrontado, dirigir-se-ia ao caixa do banco e, rudemente, o questionaria:

- Como acatara um cheque seu, com assinatura de outro? Sua desídia levara seu saldo para o vermelho! Iria ao gerente, solicitar sua demissão imediata!

Pimentel, com muita argumentação demovera-o daquela idéia, pois iriam ao banco e acertariam o equívoco rapidamente. Afinal, o bancário era uma pessoa extremamente afável no relacionamento com ambos.

A vida seguira seu curso natural - Pimentel esquecendo onde estacionara o carro, as doses cavalares de uísque, etc.

De outra feita, na véspera do carnaval, a secretária passara uma ligação e, ao atender, uma voz feminina pronunciara um alô, suficiente para entabularem uma conversa. Pimentel, excitado com aquela voz sensual, em determinado momento fizera o convite, afoito como era em se tratando do sexo feminino, de se encontrarem no dia seguinte, para se conhecerem e brincarem o carnaval. A mulher apresentara alguma relutância, mas acabara concordando, cada um declinando suas características físicas e as fantasias que estariam usando. Encontro marcado para tantas horas, em frente ao bar Amarelinho!

Em êxtase, contara aos colegas sobre o ocorrido.

No dia seguinte, Pimentel inventara uma argumentação qualquer para sair de casa, com a indumentária previamente descrita para aquela mulher, que povoou seus sonhos na noite anterior.

A mulher, furtivamente, olhara a hora e não criara nenhum empecilho.

Pimentel a flutuar, num arroubo quase juvenil, na expectativa daquele encontro!

Corroborando tal estado de espírito, o efeito do álcool complementava aquela felicidade ímpar.

Chegara com antecedência, ampliando sua visão periférica. Não via a hora de aquela mulher chegar!

Olhava o relógio em intervalos sempre menores, contrastando com o aumento de sua pressão sanguínea, pela excitação crescente.

O estado de tensão aumentara quando, no horário aprazado, sua diva loira não chegara.

Após longos e intermináveis 20 minutos, seu coração quase parara! Caminhava em sua direção aquela mulher insinuante, vestindo uma melindrosa preta curtíssima, conforme o combinado para o reconhecimento prévio.

Apressara o passo e, a menos de um metro, um choque percorrera seu corpo, quedando-o estático! Estava diante de sua esposa, com uma peruca loira.

Pimentel tivera o desplante de não reconhecer a voz da própria mulher, no dia anterior, e esta dera corda suficiente para ele se enforcar.

Aquele sábado de carnaval transformara-se, para ele, numa terrível quarta-feira de cinzas!


















7 comentários:

  1. Realmente um indivíduo com essas características do seu texto, merece uma reverência da vida, pois, normalmente na humanidade as amnésias são seletivas.

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  2. Hasta Las Nubes,
    Concordo que os amnésicos procedem com seletividade nas suas ausências de memórias, contudo, no personagem do texto procurei colocá-lo numa dimensão plena, isto é, as faculdade de reter idéias, impressões era total.
    Enfim, um digno representante das ausências da memória primária.
    Abraços

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  3. MARA: MARAVILHOSO!
    Muitas gargalhadas, suspense, muito bommmmmmmmmm!
    O senhor deveria ganhar algum premio da LIteratura urgente pela forma encantadora, divertida, e realista que escreve seus contos.
    E impressionante o comprometimento que o "senhorito" tem com a arte de escrever bem e surpreender tambem!
    Abracos Energeticos,
    Tamara Oliveira

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  4. Tamara,
    Não aumente o meu complexo com suas ironias.
    O meu bom-senso, saturado de aconselhar-me a seguir outro rumo, pois, o que teimo em trilhar (escrever)é nefasto e improdutivo, abandonou-me, há algum tempo, a execração pública(pelo que redijo).
    Portanto, não tripudie sobre minha teimosia, no caso, burra.
    Beijos

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  5. AIAIAI! Se todos os "burros" fossem iguais a voce! Que maravilha seria viver, ou melhor que maravilhas iriamos constantemente ler!

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  6. Concordo com a Tamara!!! Mas é amnésia demais para minha cabeça!!!!! rsrsrsrsrs

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  7. Catia,

    Felizmente, você e Tamara, não são alcoolatras.
    Depois do deliriium tremis provocado pelo excesso de bebida, a rede neural é destruída e a memória presente desaparece na mesma velocidade que a bebida é ingerida.
    A amnésia é de menos, a meu sentir, demais, é o excesso de bebida.
    Obrigado pelo seu comentário,
    Paulo Roberto

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