Gerado por acidente de percurso, num relacionamento curto, pois assim era a regra. A extensão do prazer era proporcional ao pagamento de maior monta e, diante dos recursos parcos, foram escassos minutos para dar vazão à sua libido.O erro crasso daquela mulher, sua futura mãe, foi negligenciar os cuidados mínimos exigidos por sua profissão, a de prostituta, e o tributo cobrado foi a gravidez, logicamente, indesejada.
Seu estágio de nove meses, no útero, foi acompanhado de impropérios incontáveis, como se ele fosse culpado, e não, vítima.
A intensidade do ódio da mulher aumentou, com o prejuízo financeiro, a partir do início do sexto mês de gravidez. A clientela não mais a desejava, ou pelo corpo disforme ou, quem sabe, pelo respeito que toda gravidez merece.
Aquele menino, antes de nascer, já tinha um passivo de desamor enorme, além de um débito significativo de ordem financeira, imputado a ele pelo abandono compulsório do trabalho da mãe, apesar de provisório.
Nasceu num casebre imundo, auxiliado por uma parteira que cumprira seu dever com competência, recebendo uma quantia irrisória que não fazia justiça ao seu trabalho. A pobreza quase absoluta aceita trocados para sobreviver, pois a rejeição dos mesmos é uma hipótese descartada.
Foi enrolado num pano usado, mas razoavelmente limpo.
Depois de dois meses, foi deixado para ser criado por sua avó, uma velha, alquebrada pelo tempo e pela vida, sobrevivendo numa miséria quase absoluta, cujo único sonho era acabar seus dias, apenas e tão-somente, vivendo soberbamente numa pobreza franciscana.
Crescera, em relação ao tempo transcorrido desde o seu nascimento, pois, na realidade, sua pequena estatura não condizia com seus 12 anos de então.
A natureza lhe fora demasiadamente ingrata. Era extremamente feio, o seu olhar trazia a marca do desequilíbrio ocular (vesgo) e locomovia-se com extrema dificuldade, em decorrência de uma paralisia que o acometera, em tenra idade, em uma das pernas. Era raquítico, asmático, com um raciocínio lento, produto da falta de alimentação e, talvez, dos excessos de pancadas recebidas na cabeça, exclusivamente por sua avó, pois a mãe desaparecera.
Em resumo, o somatório dos seus atributos físicos e mentais formava um todo deplorável.
Para agravar o preconceito, a rejeição da sociedade, era preto.
A ausência do Estado era total em sua vida, agravada pela inexistência de um mísero pedaço de papel, maculado por um conjunto de letras e assinaturas (certidão de nascimento), razão adicional para a desídia estatal.
Afinal, ele não fazia parte de nenhuma estatística, não existia.
Realmente, era ninguém. Era homônimo do personagem principal que o velho bardo grego, Homero, imortalizou nos seus escritos, especificamente, na Rapsódia de Ulisses.
Com a chegada da morte da avó, não teve alternativa, partiu para as ruas.
Continuou no ciclo de sofrimentos, de abandono, de misérias, sem vínculos, sem valores. Entretanto, acabou achando sua redenção, viciando-se em crack.
Numa certa noite fria, excedeu-se no consumo do vício e foi encontrado sem vida, com uma expressão lívida e com um sorriso nos lábios, o único e derradeiro em toda sua existência.
A morte impiedosa, ao avaliar aquela existência sofrida, provavelmente foi acometida de um instinto maternal - afinal, é mulher – e, carinhosamente, o levou em seus braços, acompanhado por uma canção de ninar.

Olá Paulo!!!
ResponderExcluirQue alegria ser a primeira a comentar um de seus textos....(até que enfim cheguei primeiro, não??) rsrs
Você conseguiu mostrar um real exemplo de como muitas pessoas, não só no Brasil mas como no mundo inteiro, podem chegar ao estado lamentável de mendicância.
Para este desafortunado, a morte pareceu ser a última esperança de sentir-se feliz, sem sofrimento, ao menos uma única vez...
Mas...., vamos combinar que você "acabou" com o pobre rapaz, não? O cara era todo "ferrado", coitado....brincadeirinha...rs
Este pode entrar na lista para o seu livro, eu recomendo!!! (Eu? Até parece...)
Parabéns, mais uma vez!
Forte Abraço!
Aline.
ResponderExcluirÉ sempre uma satisfação ler seus comentários. Esforçei-me para retratar as mazelas do mundo, sem a hipocrisia da sociedade. Na mídia, os casos desses infelizes, são meramente sensacionalista, retratando, apenas, o resultado final das desídias do Estadoe dos pais.
As medidas que deveriam ser tomadas, com a presença efetiva dos mandatários desse país, são demagógicas e nunca efetivas.
O único conforto desse meu personagem foi às drogas, pois, saia da triste realidade para um outro mundo ilusório.
E procurei, não sei se consegui, humanizar a morte, com aquela licença poética.
Obrigado pelos comentários. Quanto ao livro quem sabe,um dia, pode se transformar em uma realidade.
Um fortíssimo abraço
Olá Tio Paulo!!!!!
ResponderExcluirEsse na crua verdade da sociedade humana,coitado,nasceu de certa forma já desfavorecido.Para início de conversa,foi rejeitado por sua mãe devido ao seu trabalho,teve varios problemas ao decorrer de sua vida e para completar,nasceu negro;Onde já descriminado por sua afeição,de forma onde a sociedade não aceita a diferença de classe social,cor da pele e outros...
Chegando na verdade a ser mais um na estatística da pobreza,e da classe dos menos favorecidos....
Texto profundo esse em tio Paulo?
abraço para o senho!!!
e meus parabéns por mais um texto brilhante!!!
Texto impactante!!!!
ResponderExcluirEsse texto nos mostra a realidade nua e crua da humanidade,sobre a diversidade de desigualdade dos menos favorecidos.
Mas esse menino teve a infelicidade de dar tudo errado em sua vida,para piorar viciou-se em crack,onde na verdade era de se esperar,perdido no mundo,onde a 1° pessoa que mal ou bem o criava chegou a falecer.
Sei que não tem nada haver o com o texto,o que direi mas muitas pessoas reclamam da vida,esquecendo q tem sempre alguem em situação deplorável,serve tambem para colocar-mos a mão na consciência e deixar-mos de ser-mos hipócritas..Onde reclamamos da vida,mas temos tudo nas mãos e não damos o devido valor..
Tio paulo texto maravilhoso!!!
Mil vezes PARABÉNS
Marcos,
ResponderExcluirTentei retratar o drama dos menores abandonados, dentro de uma realidade que a mídia esconde. O sensacionalismo é feito sobre o efeito e não sobre a causa, onde há omissão total do Estado.
Realmente é triste.
Agradeço pelos comentários.
Abraços de seu tio,
Marcos,
ResponderExcluirA sua observação é procedente, pois, muitas vezes reclamamos da vida, olhando apenas para o nosso interior e esquecendo dos deserdados da sorte que são milhões.
Nos omitimos, em muito, diante dos problemas alheios. Quando o Estado está ausente, nós que felizmente estamos em outro patamar, ficamos indiferentes aos dramas dos menos favorecidos.
Temos que votar com consciência e influenciarmos as pessoas menos esclarecidas sobre esse ato. Do contrário, vamos perpetuar a miséria de nossos semelhantes e possívelmente seremos vítimas de alguns desses excluídos.
Marco, seu tio já passou muita fome e "morou" escondido no clube de Água Santa. Dormia num barracão que ficava os objetos danificados (mesas, cadeiras, etc), sobre uma lona.
Tomava banho numa bica e enchia a barriga de água para aliviar a falta de alimentos. Isso tudo, logicamente, escondido do vigia.
Estudei à luz de vela. Sei que muitos fizeram esforços maiores do que o meu e não consiguiram subir na vida. Naquela época era transparente para a sociedade, ninguém dirigia-me um sequer olhar. Infelizmente é a vida.
Abraços do seu tio,
Que História, hein Paulo?
ResponderExcluirAdmiro pessoas como você, que conquistaram coisas, pessoas, status, tudo com muita luta, emprenho, esforço......mesmo que a sociedade subestimasse a sua capacidade de mudar a própria realidade!!!
Forte abraço!
retificando a msg acima: "empenho"
ResponderExcluirAline,
ResponderExcluirA vida é com um talvegue. Nesses caminhos tortuosos,felizmente,consegui subir alguns degraus, com muito esforço.
Lamento por aqueles que não conseguiram.
Grande abraço
Grande Paulão!!!!
ResponderExcluirPostei uma mensagem há umas semanas atrás, mas por algum motivo não ficou salva. Teve um Professor de faculdade e estudante de doutorado que se vestiu de faxineiro durante os 4 anos do curso. Seus colegas professores e alunos passavam por ele e não o reconheciam, um, chegou a trobar com ele e nem pediu desculpas, era como se ele fosse invisível. Todas essas passagens foram relatadas em sua tese sobre a invisibilidade dos menos favorecidos. Por falar nisso, em invisibilidade, o título desse texto ficou escrito errado "realidada" ao invés de "realidade".
Falando do texto, essa é uma realidade de milhares ou até milhões de pessoas no Brasil, principalmente nas ditas grandes cidades, que de grande só os problemas - falta de água, falta de saneamento básico, falta de emprego, falta de moradia, falta de hospitais de qualidade...... e por outro lado sobra engarrafamento, enchentes, assaltos, balas perdidas...... e desse jeito seremos sede de uma olimpiadas. Acho que você terá muito assunto para seu blog/ livro.
sds, Valdir
Valdir,
ResponderExcluirTive conhecimento de um professor que relatou a experiência de viver como gari no campus da universidade que dava aula. Ficou transparente para todos.
Quanto ao texto procurei colocar a situação do menor abandonado, na sua origem e não na sua parte midiática.
Acertarei o título do texto.
Obrigado
Professor, essa história é comovente. Sabe que já tive esse pensamento, de a morte para algumas pessoas ser uma amiga, não tinha pensando nela com instinto materno mas já a imaginei assim, sendo uma salvadora de algumas pessas que sofrem. O senhor já leu o livro "A menina que roubava livros"? Fala da morte, quer dizer ela narra a história, o título é um pouco infantil mas o conteúdo é bem legal, é até um pouco dificil compreender algumas partes. Eu recomendo que o senhor leia, caso não tenha lido ainda, e depois me diga o que achou.
ResponderExcluirUm forte abraço e um ótimo domingo.
Heidi,
ResponderExcluirDesculpe-me pelo o atraso em respondê-lo, pois, estou afastado de Macaé, em razão de doença na família.
Lerei o livro indicado e mandarei minhas impressões.
Quanto ao texto procurei mostrar uma situação limite do ser humano, onde a origem dos problemas são ignorados pelo Estado e pela sociedade.
A visibilidade dos desafortunados, somente transparece na mídia quando esses cometem delitos graves.
Tentei humanizar a morte, já que não conseguia humanizar os homens.
Abraços