Saiu aborrecido.
Pegou os óculos verdadeiro fundo de garrafa e com a camisa limpou as lentes.
Seguiu para sua moradia, bastante arejada, debaixo da ponte, do rio dos Afogados.
Lia, à noite, à luz do luar.
Não falava sobre o passado.Na caminhada para casa encontrou alguns de sua classe, os esmoleres, num verdadeiro convescote. À exceção da comida, a bebida fazia frente, naquele espaço ao ar livre.
Havia, entretanto, um mendigo desconhecido.
Ficavam papeando e molhando as palavras com doses razoáveis de pingas de marcas desclassificadas até certo ponto.
Sim, afinal, nenhum deles recusava um trago.De repente, o novato disse que havia entrado na Justiça, através da Defensoria Pública.
Ao expor o Sistema acabou massacrado.
E, como ocorre com todo pobre, o processo transitou em julgado, logo, na 1ª Instância.
Impedem, aos despossuídos, o direito da 2ª Instância.
E, assim, o Judiciário diz que faz Justiça para todos.Bem-te-Vi, ao ouvir o vocábulo Justiça, esboçou um leve gesto de revolta, ao pedir silêncio, bruscamente.
Achava que as décadas haviam atenuado a sua expulsão da Ordem dos Advogados do Brasil, pois denunciou um Desembargador que recorreu à Justiça Gratuita, por não ter recursos para pagar um advogado de defesa, numa querela jurídica em que era incriminado por estupro de vulnerável. Aquilo era escárnio para os infelizes que necessitavam de apoio jurídico, que chegavam às 2h da madrugada para conseguir uma das 10 senhas às 9h.
Não era para serem atendidos naquele dia. Não.
As senhas eram para a secretária agendar dia e horário em que voltariam para falar com estagiários de Direito, e não com o Defensor Público. Ao expor o
Sistema acabou massacrado.
Os seus pares fizeram o que se esperava.
O abandonaram.
Como começou, calou-se. Os goles ávidos das malditas faziam surgir as lembranças mais recônditas nas almas daqueles seres marginalizados da melhor sorte.
Falavam à exaustão sobre os seus entes queridos. Bem-te-Vi estava calado.
Mesmo instado a falar, não cedia a qualquer pressão.
Fumava em excesso. Em noites mais sombrias, não era somente a pouca luz, o escuro, mas as mágoas, as tristezas do passado que o martirizavam.
A mulher desviveu cedo.
Os filhos desviveram, no sentido de esqueceram dele, logo depois.
Era apenas um andrajo ambulante que ia ler Lisístrata, de Aristófanes.
Conseguiu no sebo, mediante o escambo de catalogar as recentes obras chegadas naquele estabelecimento de livros usados, aquela preciosidade.
Talvez a primeira comédia escrita e encenada em Atenas, no ano 411 a.C.
Agora, embaixo da ponte, lembrou das mulheres de Atenas que fizeram greve de sexo para acabar com a guerra.
Ele perdeu a mulher, os filhos, a OAB, a toga.
Julga que não tem mais nada a perder e acende um cigarro para esquecer as mágoas.
Esse assentamento "nada a perder" é um grave erro.
Sempre tem.
Tem o cigarro.
Tem as mágoas.
Tem o debaixo da ponte.
Tem o escambo.
Quer saber? Tem muito mais para perder.
