Não era um ato meramente contemplativo, mas de profunda
reflexão.
Naquele instante seus pensamentos retroagiam a tempos idos.
Olhando aquele céu estrelado revisitou sua meninice. Precisamente quando tinha
seus cinco anos de idade, onde sozinho, sentado numa pedra do terreiro que
abrigava o seu teto, uma choupana, e dirigia seus olhos inocentes para aquela
imensidão do espaço e pedia a papai do céu que tornasse as suas vidas (pai e
mãe) iguais às dos pobres, pois viviam numa miséria infinda.
Na marcha inexorável do tempo, suas vidas evoluíram lentamente
da indigência à pobreza e desta, para o de remediados.
Fez faculdade numa Universidade Federal, em seguida o
Mestrado e há poucos meses defendeu sua tese de Doutorado.
Agora estava naquela Instituição.
Um acadêmico que há dois meses fazia residência médica,
ávido pelo saber, percebeu que o Doutor poderia expandir o seu conhecimento em
tempo relativamente curto.
O melhor momento para adquirir informações adicionais era à
noite, quando a demanda de serviços era menor e quando o Doutor estava bem.
O acadêmico se aproximava do banco onde o Doutor estava refestelado,
observando o universo, cumprimentava-o e fazia suas indagações que eram
respondidas de forma clara e didática, entretanto, havia noites que o Doutor
não estava para conversa e respondia a saudação com um leve movimento de mão e
dizia sempre: ”são de três anos atrás.”
O gesto e as breves palavras eram o suficiente para o
acadêmico retornar ao plantão.
Mais do que frustrado, o acadêmico ficava incomodado com
aquelas palavras “são de três anos atrás.”
Numa determinada noite ao perceber o gesto e ouvir aquelas
palavras, resolveu indagar:
“Doutor, o que significa a expressão “são de três anos
atrás”?“
Não esperava qualquer comentário e foi surpreendido quando o
Doutor respondeu:
“Nem tudo que seus olhos testemunham é real, às vezes é uma
ilusão. Olhe esse céu estrelado. Esse céu não é o de hoje, e sim, de três anos
atrás. O cálculo é simples, basta utilizar as distâncias dos corpos celestes e
a velocidade da luz, logicamente, que os três anos representam uma média.”
O acadêmico ficou boquiaberto, pois, jamais fizera essa
associação.
O Doutor vendo a reação aparvalhada do residente, disse: “O
problema não é seu, e sim do sistema educacional, onde os professores não
estimulam os alunos a pensarem. Muitas estrelas que agora estão brilhando,
talvez não existam mais. Quando fico absorto contemplando a abóboda celeste,
tento lembrar o que fazia há três anos atrás, mas quase na totalidade das vezes
é um exercício em vão.”
O acadêmico perplexo reiterou o boa-noite ao Doutor e
retirou-se.
Na semana seguinte, quando entrou no seu plantão, o
acadêmico recebeu a notícia de que o Doutor entrara em um surto profundo e
estava recolhido naquele cubículo acolchoado para preservar sua integridade
física e vestido em uma camisa de força.
Foi vê-lo. O Doutor balbuciava, apenas: ”são de três anos
atrás”.
Ficou comovido, apesar dessas cenas serem corriqueiras
naquela instituição, afinal, era um manicômio.
O Doutor sofria de esquizofrenia paranóide.
A alcunha de Doutor foi dada pelo próprio corpo médico
(clínicos, psiquiatras, psicólogos, etc.), reconhecendo que dentre eles quem
poderia ostentar o título de Doutor seria ele, afinal tinha feito o curso de
pós-graduação "strictu sensu", no nível de doutorado, defendendo uma tese
ao final de um curso de quatro anos.
O interessante era que seus pares, loucos de todos os
gêneros, o chamavam, também, de Doutor.
Confesso, sem nenhum pudor que das inúmeras vezes que ele
tentou explicar-me a sua tese, a minha limitação intelectual não alcançava a
complexidade da coisa, apesar do didatismo dele.
Ele desenvolveu um algoritmo, um modelo matemático, cheio de
integrais, derivadas, limites, fronteiras móveis que simulavam o
desenvolvimento das células cancerosas no organismo humano.
Resultado: sua tese foi publicada na maior revista
científica do mundo, imediatamente. Recebeu diversos convites para dar
palestras nos centros de pesquisas mais respeitados do mundo, além dos inúmeros
convites para trabalhar nos aludidos centros.
Usufruiu por poucos dias a sua conquista.
A sua realidade agora é conviver com Napoleão, Nero, Jesus,
Papa, e outras figurinhas carimbadas pela loucura, além daquele que merece uma
ressalva final.
É conhecido por BEM.
Contudo, os funcionários
daquele hospício deveriam deixar a hipocrisia de lado e utilizar in
totum a expressão repetida à exaustão por ele que, lamentavelmente é
uma triste realidade:
“A vida é BEM filha da puta”.
Talvez vocês não concordem com a assertiva acima, afinal é
um direito líquido e certo o dissenso, contudo, desgraçadamente para todos nós
não existem fundamentos consistentes para invalidar a definição acima
mencionada.

Pois, o senhorito comentou a respeito das estrelas e todas as vezes que as vejo no ceu lembro que na realidade elas provavelmente nao estao la, que e tudo uma ilusao. Obrigada por tal informacao! Bei, bei
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