terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Coisa feita

Era judeu. Antes que venha a sua mente o velho estereótipo “todo judeu é rico e avaro”, esclareço: para desgosto dele, Isaac, pertencia ao grupamento da exceção que valida toda a regra.

Pobre, dividia o espaço exíguo daquela casa suburbana com seus pais, judeus ortodoxos.

A bem da verdade tinha uma dificuldade de abrir a mão para cumprimentar as pessoas, talvez, por timidez ou predisposição genética.

O desgosto dos velhos era o filho professar a religião de forma heterodoxa.

Trabalhava como motorista numa filial de uma multinacional francesa. Era no dizer dos mais antigos, “um verdadeiro burro de carga”, ou, na calhordice atual do discurso gerencial, um empregado afinado com os valores da empresa.

Em suma, Isaac seguia à risca a maior maldição bíblica: “ganharás o pão com o suor do seu rosto” e, olha que era um preceito de outra religião, a católica.

Começou um relacionamento com uma morena que se transformou numa paixão avassaladora, em curtíssimo espaço de tempo.

Como em todo caminho existem os descaminhos, o dele era a religião de sua amada que frequentava um Centro Espírita, na qualidade de iniciada, era cambona (é o médium que participa nas giras de assistências como auxiliar dos Guias em terra).

Contornou o quanto pode os inúmeros convites feitos de acompanhá-la ao Centro, mas pressentiu que caso negasse o daquele momento, o relacionamento de ambos teria fim.

Chegaram momentos antes do início dos trabalhos.

Assistiu o ritual com certo enfado e num certo momento seu nome foi chamado para falar com um preto velho.

Diante da surpresa não opôs resistência.

Quando percebeu estava recebendo os passes costumeiros daquela entidade espiritual.

Refeito do espanto, dirigiu as seguintes palavras ao preto velho:

- “olha, eu não acredito em nada disso.”

O preto velho esboçou um sorriso e disse:

- “ixo num importa, o que importa é suncê tá aqui.”

Isaac ouviu aquelas palavras e ficou quieto.

O preto velho deu duas cachimbadas, cuspiu no chão e colocando sua mão direita sobre o ombro esquerdo de Isaac, disse:

- “mô fio, iziste coisa feita (trabalho feito para levar o mal) contra suncê... como diz na terra de suncês? ...... ah, é... tá prá acuntecê logo. Sumcê precisa de fazê um despacho (anular o trabalho) e listou o que era preciso.”

Aí não prestou. Isaac começou falar uma série de desaforos para o preto velho.

O preto velho ficou impassível e quando deu uma cachimbada, alguma coisa aconteceu, pois sua expressão mudou (havia recebido ordens de entidades superiores para desfazer a sua interferência, para atrasar o trabalho contra o consulente, quando ele havia colocado a sua mão no ombro de Isaac.)

O preto velho alterou sua voz e colocando sua mão sobre o ombro esquerdo de Isaac, disse:

- “tirei dêche” (e colocando a mão no ombro direito de Isaac), “agora: coloco nêche.”

O preto velho pediu ao ogã (que toca atabaques) um canto específico de preto velho e cantou para subir (desincorporou).

Isaac saiu gesticulando, blasfemando e foi embora antes de se Fechar a Gira (encerrar os trabalhos no terreiro).

No dia seguinte foi para o trabalho e depois do expediente, como de costume, levou o carro para casa. Era o único motorista que gozava desse privilégio, por determinação expressa do gerente da área.

Seguindo sua rotina, parou na padaria perto de casa e comprou um saco de pão e quando parou para abrir o portão daquele arremedo de garagem foi surpreendido por um assaltante com arma em punho, gritando: “perdeu malandro”. Entregou as chaves do carro que ainda nem estava emplacado e chegou a pensar em pedir o saco de pães, no que tange aos seus documentos pessoais esses eram irrelevantes, pois, providenciaria as 2ª. vias de graça. Contudo, o instinto de preservação falou mais alto e ficou calado.
Quanto ao carro? Dane-se ... é da empresa – pensou ele.

Foi à delegacia e fez os registros necessários e saiu com o Boletim de Ocorrência (BO).

Acordou mais cedo do que de costume, pois, precisava pegar três ônibus para chegar ao trabalho.

Para sua surpresa, apenas o pessoal administrativo estava na empresa. A alta administração já estava, desde a tarde anterior, num hotel cinco estrelas em Angra, esperando a chegada do presidente internacional da empresa para um seminário sobre o novo plano estratégico.

Atordoado por não ter um funcionário com autoridade para tomar as devidas providências sobre o ocorrido na noite anterior, sua situação piorou quando um empregado veio com uma placa com o nome do presidente internacional da empresa e as chaves daquele carro especial (blindado), acrescido de um papel com o número do voo que trazia o presidente e o endereço onde deveria levá-lo.

Sem alternativas, seguiu para o Aeroporto Internacional Tom Jobim (antigo Galeão).

Houve atraso no vôo. O presidente avistou a placa com seu nome e dirigiu-se a Isaac que o conduziu ao veículo, por meio de mímicas, levando suas malas.

Desconhecia a estrada, mas para recuperar o atraso dirigiu numa velocidade excessiva por dezenas de quilômetros, até que o inesperado fez-se presente: passou a 160 km/h na frente da Patrulha Rodoviária.

Aliviou o pé e olhando pelo retrovisor viu a viatura já com as sirenes ligadas saindo do seu Posto e sem alternativa, deu a seta e parou no acostamento.

Os homens chegaram e utilizando daquele linguajar de praxe, fez as observações pertinentes e pediu os documentos. Isaac, trêmulo, tirou do bolso o BO, imaginando sair daquela situação com uma multa, além do esporro que já havia tomado.

Ledo engano. Mesmo explicando que estava levando o presidente de uma multinacional francesa para um seminário importante, as autoridades policiais ficaram irredutíveis: o carro somente seguiria viagem com a presença de um motorista com a carteira de motorista em dia.

O presidente que assistia a tudo calado, mas como entendia e arranhava um pouco o português, entendeu quando os policiais falaram em carteira de motorista e mostrou a sua, internacional.

Em resumo, seguiram viagem com o presidente dirigindo e Isaac no banco do carona.

Quando chegaram, o alto escalão da filial estava esperando o presidente, todos a caráter, de terno e gravata, na entrada do hotel.

A perplexidade tomou conta de todos ao verem o presidente dirigindo e o motorista de carona. Diversos pensamentos passaram na cabeça de todos, mas os olhares eram únicos todos dirigidos ao gerente de logística (chefe de Isaac).

Quando começaram os cumprimentos, o gerente do Isaac se esquivou daquele ritual e chamando o motorista de lado e de forma seca informou-o que estava demitido de forma sumária e que fosse na semana seguinte ao RH da empresa, para receber seus direitos.

Isaac, perplexo e desorientado procurou o caminho de casa, mas jura que naquele momento ouviu a voz do preto velho dizendo:

hum, hum ... suncê num fez ouvidor do faladô do véio, agora mi fio, guenta”.

Fez uma pesquisa no Google Maps e achou o local ideal, na zona sul, bem longe de onde morava e foi às compras.

Sofreu até chegar sexta-feira e à meia-noite, todo vestido de branco, arriou o despacho (para anular o trabalho feito contra ele), naquela encruzilhada, previamente escolhida. O alguidar continha uma garrafa de anisete, velas, cigarrilhas e charutos para todos os gostos.

Quando fazia as reverências de praxe com os braços estendidos, surge um carro que vai na sua direção e, logicamente, do despacho.

O motorista, um temeroso, reduz a marcha e quando põe os olhos no rapaz vestido de branco e no despacho, começa a tremer de forma incontrolável e a suar frio em bicas, afinal ele reconheceu Isaac, o judeu, pois até poucos dias atrás era seu motorista preferido e que o demitira de forma abrupta.

Místico, ou melhor, um estelionatário da fé, entrou em pânico. O trabalho arriado era contra ele, não tinha dúvida.

Não dormiu. E quando deu 8:00h da manhã, ligou para o chefe do RH e pediu que ele enviasse um subordinado, apesar de não ter expediente na empresa, à casa de Isaac para comunicá-lo que retornasse, imediatamente, ao trabalho, na segunda-feira, pois, a demissão fora um equívoco.

Eu que sou ateu, acho que os fatos acima foram meras coincidências, mas no fundo, no fundo, não sei não...









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4 comentários:

  1. Pocha, paulão, realmente Machado de Assis se vira no túmulo de inveja cada vez que vc escreve. Um feliz natal pra vc amigão.....

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  2. Joca,

    Vou entender seu comentário como um estímulo e não como ironia.
    Que o natal seja pleno e que o ano vindouro seja o início de uma série infida de realizações.
    Paulão

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  3. Tio Paulo, estava me tremendo toda ao ler seu trabalho. Me tremi de tanto rir! Caramba Parabens! Que sacada! Fantastico!
    Abracos Energeticos,

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    1. Tamara,
      Obrigado pelo seu estímulo.
      O judeu do texto retrata fielmente, a frase de Ortega Y Gasset: o homem é ele e suas circunstâncias.
      Beijos

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