Acordara sobressaltado, com as mãos trêmulas, garganta ressecada e com um travo amargo na boca.As gotículas de suor frio ocupavam todos os espaços da calvície precoce e bastante pronunciada. Num gesto instintivo desviou o olhar para o espaço que há anos divide com a esposa. A visão angelical daquele rosto, apesar da passagem dos anos, arrefeceu imediatamente aquele pulsar sanguíneo completamente descontrolado que aumentava o seu martírio.
Dirigiu o olhar agora para o rádio-relógio que marcava quatro horas e quinze minutos de uma madrugada fria de um dia qualquer do mês de agosto.
Tentou conciliar o sono. Entretanto, Morfeu, o deus grego do sono, tinha batido em retirada pela perturbação vivenciada, também, com aquele pesadelo.
Levantou com cuidado para não despertar a esposa que dormia o sono dos justos, como se tal adjetivação fosse cabível à natureza humana, penso eu.
Afundou seu corpo combalido no sofá da sala e as imagens, as vozes, as frustrações que povoaram o recém pesadelo voltaram imediatamente.
Estava num ambiente asséptico, mais precisamente numa sala de audiências, de uma Vara de Família qualquer, quando percebeu a figura de um juiz togado, na parte superior esquerda de seu campo de visão, com um ar insolente, extremamente avaro nas palavras e com uma iracúndia que causava inveja a certos ministros do Supremo.
No campo visual frontal, os seus olhos cansados e incrédulos depararam-se com a figura da esposa e de sua filha única, essa como causídica, compondo a parte litigante.
Quando o juiz perquiriu ao seu advogado sobre as demandas em questão: separação litigiosa, pensão alimentícia e uma divisão esdrúxula dos bens, e o causídico com as vênias protocolares começou sua peroração intermitente pela tartamudez, foi quando o desespero o abarcou definitivamente.
Afinal, pela sua formação humanística, contratara um profissional com defeito na fala que se embaraçava e parava em certas sílabas e inesperadamente repetia outras à exaustão. Era gago.
A sua defesa fora lastimável, não pela gagueira do seu constituinte, mas pelo conteúdo do contraditório.
Quando o magistrado encerrou a sessão, comunicando que prolataria a sentença em dias e bateu o malhete, foi o exato momento que despertou de sua agonia.
No horário usual, tomou banho e vestiu-se para mais um dia de trabalho. Estava feliz e aliviado.
À medida que as horas iam passando a convicção de que aquele sonho desqualificava o instituto dos pesadelos, caso esse existisse, pela impossibilidade da materialização do mesmo, provocava nele um sorriso largo que chamava a atenção dos colegas de trabalho.
Habitualmente, a esposa acordava uma hora depois de sua saída, mas não naquele dia.
Quando estava no meio de uma reunião técnica, a esposa cumprimentava a atendente de um escritório de advocacia para as tratativas finais do processo de separação.
Quando transpôs os umbrais de uma das salas, a advogada a saudou com um radiante: Bom dia, mãe!
O transcurso do tempo permitiu que ele distinguisse a diferença entre pesadelo e premonição.

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