
Acabara de sair de seu turno de trabalho e, sabedor da impossibilidade de recolher-se a um ambiente de total privacidade, caminhou em direção à sua única e cotidiana opção: - a praça, que era de domínio público.
Sentou-se num banco o mais afastado possível, ligou seu gravador, que para ele representava o único e derradeiro amigo, e começou o seu monólogo:
- Falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país.
Sofro de diabetes, daltonismo e distimia. Que herança! Pensando bem, qualquer herança patrimonial é sinônima de desavenças, discórdias, desunião mas, por ser filho único, não sofreria desse desgosto. Não causava desapontamento o fato da penúria, da pobreza familiar, de não herdar valor pecuniário. Contudo, aquilo que foi transmitido por hereditariedade, do pai diabetes e daltonismo e da mãe a distimia, era uma perversa doação de genes desqualificados.
O trabalho numa firma terceirizada, afinal o custo Brasil era altíssimo (um verdadeiro mantra entoado pela classe empresarial), representava um excesso de serviço, em contraponto a um salário miserável. Não tinha opção e torturava-se no atendimento aos usuários de telefone, que lhe solicitavam informações sobre o número de determinados serviços públicos e o DDD de diversas cidades. Esse último tipo de atendimento, apesar de ser um agnóstico e sem grandes convicções, evocava em sua mente a figura do deus Pã (terror), aquele que suscita um medo por vezes infundado, mas sua mente associava o DDD pedido às suas doenças, que começavam com essa maldita letra “D”.
Olhara a hora e levantou-se, dirigindo-se ao local onde os famélicos saciavam sua fome, a urgência alimentar, a única coisa palpável na qual o Estado fazia-se presente para os deserdados da sorte.
Havia fila no restaurante popular, que continuava a cobrar 1 real, quantia irrisória para muitos. Entretanto, era comum a contagem de moedas para chegar-se ao valor cobrado. Gestos de solidariedade eram corriqueiros entre os necessitados, um miserável ajudava o outro a completar o valor cobrado.
Alimentado, retornava à praça.
Continuava seu monólogo até o fim da tarde, quando entrava na fila de um hotel, precário e decadente, que cobrava um preço módico para a dormida.
As regras eram rígidas. Às 22:00 horas a luz era cortada e às 06:00 horas todos eram compulsoriamente acordados, tendo o prazo de apenas uma hora para a higiene pessoal, que era feita num banheiro coletivo.
As dimensões daquilo que se podia denominar de quarto eram exíguas, em oposição à imensidão de problemas daquele ser vivente. Estirou-se no catre, na expectativa do sono reparador. Não conseguiu conciliar o sono. O pensamento recorrente o torturava.
No horário imposto, fez sua higiene pessoal. Devidamente vestido para nova jornada de trabalho, desceu as escadas de madeira que rangiam, em protesto por não suportarem o passar dos tempos, sustentando o peso de corpos errantes.
Ao adentrar na portaria da empresa foi saudado pelo vigilante: - “Bom dia, seu David”.
Na mesma hora, um curto-circuito nos neurotransmissores provocou um ataque, um surto mental. Começou a berrar alucinadamente, lançar impropérios, emitir palavras desconexas e quebrar tudo que estava estático em sua frente.
Continuava a berrar, mas o som emitido parecia ter menos intensidade, sendo suplantado pelo som da sirene da ambulância que o conduzia. Deitado numa maca, imobilizado por uma camisa de força, tinha por companhia o seu gravador e dois indivíduos vestidos de branco, uns brutamontes.
Fora levado a um hospital, exclusivo para diagnóstico e tratamento de problemas psiquiátricos.
Os médicos, após ouvirem o relato de suas ações e reações, sedaram-no.
O movimento estava atípico naquela unidade de saúde e um dos médicos, olhando o pertence (gravador) do paciente, resolveu escutar o que estava gravado. Poderiam ser músicas, que quebrariam a monotonia do plantão. Para sua surpresa, na fita existia o diário do paciente.
Infelizmente, as informações registradas alcançavam, apenas e tão somente, dois dias. O dia presente, onde estavam gravados a data e o horário do começo do seu dia, e uma breve menção ao café tomado no bar. Entretanto, eram os registros do dia anterior que forneciam ao Doutor Dário uma fonte preciosa para consubstanciar o seu diagnóstico.
Providenciou a degravação da fita, gerando o texto acima, tomando a liberdade de grifar todas as palavras que iniciavam com a letra “d”, que o ajudariam na confecção de seu laudo.
Resultado: - Foi encaminhado a um dos poucos manicômios remanescentes, em razão da nova política de saúde pública prescrever, como local mais adequado para tratamento de pessoas portadoras de problemas mentais, seus próprios lares, junto a seus familiares.
David era um paciente dócil, não criava problemas para tomar as doses cavalares de fármacos e até ajudava, algumas vezes, os companheiros de insânia.
Nos horários dedicados ao lazer, era sempre visto no banco mais distante, ocupado com seus clientes imaginários, fornecendo os DDDs solicitados. Com o passar do tempo, sua expressão facial modificava-se, provavelmente fazendo a eterna associação com as iniciais de suas doenças (diabetes, daltonismo, distimia).
Ignorava, por sua fragilidade mental, mais uma doença incorporada ao seu ser: depressão (sempre com aquela letra “d”, aziaga).
A deterioração mental progredia, assim como o temor da morte, pois não sabia se encontraria Deus ou o diabo.
A síndrome da letra “D” levou-o à demência total.
Numa madrugada, após uma convulsão severa, sofreu dois infartos e desencarnou.
O atestado de óbito devidamente preenchido, era a última ironia perpetrada contra o David, pois a primeira fora sua certidão de nascimento, cujo prenome registrara o agourento “D”, no início e ao final do mesmo. Era a última pois, como dia e hora de seu falecimento, constavam: - dia dois de dezembro, às duas horas da madrugada.
Sentou-se num banco o mais afastado possível, ligou seu gravador, que para ele representava o único e derradeiro amigo, e começou o seu monólogo:
- Falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país.
Sofro de diabetes, daltonismo e distimia. Que herança! Pensando bem, qualquer herança patrimonial é sinônima de desavenças, discórdias, desunião mas, por ser filho único, não sofreria desse desgosto. Não causava desapontamento o fato da penúria, da pobreza familiar, de não herdar valor pecuniário. Contudo, aquilo que foi transmitido por hereditariedade, do pai diabetes e daltonismo e da mãe a distimia, era uma perversa doação de genes desqualificados.
O trabalho numa firma terceirizada, afinal o custo Brasil era altíssimo (um verdadeiro mantra entoado pela classe empresarial), representava um excesso de serviço, em contraponto a um salário miserável. Não tinha opção e torturava-se no atendimento aos usuários de telefone, que lhe solicitavam informações sobre o número de determinados serviços públicos e o DDD de diversas cidades. Esse último tipo de atendimento, apesar de ser um agnóstico e sem grandes convicções, evocava em sua mente a figura do deus Pã (terror), aquele que suscita um medo por vezes infundado, mas sua mente associava o DDD pedido às suas doenças, que começavam com essa maldita letra “D”.
Olhara a hora e levantou-se, dirigindo-se ao local onde os famélicos saciavam sua fome, a urgência alimentar, a única coisa palpável na qual o Estado fazia-se presente para os deserdados da sorte.
Havia fila no restaurante popular, que continuava a cobrar 1 real, quantia irrisória para muitos. Entretanto, era comum a contagem de moedas para chegar-se ao valor cobrado. Gestos de solidariedade eram corriqueiros entre os necessitados, um miserável ajudava o outro a completar o valor cobrado.
Alimentado, retornava à praça.
Continuava seu monólogo até o fim da tarde, quando entrava na fila de um hotel, precário e decadente, que cobrava um preço módico para a dormida.
As regras eram rígidas. Às 22:00 horas a luz era cortada e às 06:00 horas todos eram compulsoriamente acordados, tendo o prazo de apenas uma hora para a higiene pessoal, que era feita num banheiro coletivo.
As dimensões daquilo que se podia denominar de quarto eram exíguas, em oposição à imensidão de problemas daquele ser vivente. Estirou-se no catre, na expectativa do sono reparador. Não conseguiu conciliar o sono. O pensamento recorrente o torturava.
No horário imposto, fez sua higiene pessoal. Devidamente vestido para nova jornada de trabalho, desceu as escadas de madeira que rangiam, em protesto por não suportarem o passar dos tempos, sustentando o peso de corpos errantes.
Ao adentrar na portaria da empresa foi saudado pelo vigilante: - “Bom dia, seu David”.
Na mesma hora, um curto-circuito nos neurotransmissores provocou um ataque, um surto mental. Começou a berrar alucinadamente, lançar impropérios, emitir palavras desconexas e quebrar tudo que estava estático em sua frente.
Continuava a berrar, mas o som emitido parecia ter menos intensidade, sendo suplantado pelo som da sirene da ambulância que o conduzia. Deitado numa maca, imobilizado por uma camisa de força, tinha por companhia o seu gravador e dois indivíduos vestidos de branco, uns brutamontes.
Fora levado a um hospital, exclusivo para diagnóstico e tratamento de problemas psiquiátricos.
Os médicos, após ouvirem o relato de suas ações e reações, sedaram-no.
O movimento estava atípico naquela unidade de saúde e um dos médicos, olhando o pertence (gravador) do paciente, resolveu escutar o que estava gravado. Poderiam ser músicas, que quebrariam a monotonia do plantão. Para sua surpresa, na fita existia o diário do paciente.
Infelizmente, as informações registradas alcançavam, apenas e tão somente, dois dias. O dia presente, onde estavam gravados a data e o horário do começo do seu dia, e uma breve menção ao café tomado no bar. Entretanto, eram os registros do dia anterior que forneciam ao Doutor Dário uma fonte preciosa para consubstanciar o seu diagnóstico.
Providenciou a degravação da fita, gerando o texto acima, tomando a liberdade de grifar todas as palavras que iniciavam com a letra “d”, que o ajudariam na confecção de seu laudo.
Resultado: - Foi encaminhado a um dos poucos manicômios remanescentes, em razão da nova política de saúde pública prescrever, como local mais adequado para tratamento de pessoas portadoras de problemas mentais, seus próprios lares, junto a seus familiares.
David era um paciente dócil, não criava problemas para tomar as doses cavalares de fármacos e até ajudava, algumas vezes, os companheiros de insânia.
Nos horários dedicados ao lazer, era sempre visto no banco mais distante, ocupado com seus clientes imaginários, fornecendo os DDDs solicitados. Com o passar do tempo, sua expressão facial modificava-se, provavelmente fazendo a eterna associação com as iniciais de suas doenças (diabetes, daltonismo, distimia).
Ignorava, por sua fragilidade mental, mais uma doença incorporada ao seu ser: depressão (sempre com aquela letra “d”, aziaga).
A deterioração mental progredia, assim como o temor da morte, pois não sabia se encontraria Deus ou o diabo.
A síndrome da letra “D” levou-o à demência total.
Numa madrugada, após uma convulsão severa, sofreu dois infartos e desencarnou.
O atestado de óbito devidamente preenchido, era a última ironia perpetrada contra o David, pois a primeira fora sua certidão de nascimento, cujo prenome registrara o agourento “D”, no início e ao final do mesmo. Era a última pois, como dia e hora de seu falecimento, constavam: - dia dois de dezembro, às duas horas da madrugada.

Dignissímo, distinto e democrático Paulão!!!!
ResponderExcluirSó para variar o texto está divino.
Seu blog é o mais comentado e visitado na repartição, uns desdenham, pelo desejo de criar um, outros deliciam com a qualidade e criatividade de suas estórias.
Lançará seu livro de crônicas quando?
sds, Valdir
Valdir,
ResponderExcluirObrigado pelo incentivo sincero. Espero que os colegas da repartição leiam e façam suas críticas.
Dentro da limitação da escrita, tenho procurado abranger vários temas, provavelmente, o próximo será mais desconfortável de ler, pois, escrevi mostrando uma realidade bem sofrida.
Em paralelo, começo a rasculhar algo, com a pretensão de se tornar um livro.
Abraços,
Paulão
Professor Paulo...
ResponderExcluirAmei esse texto e confesso que senti uma dor no peito, eu que já trabalhei em uma terceirizada como David, sei como é... e além do mais ter que dar graças a Deus por ter um "emprego"... Existem muitos nessa realidade. Hoje agradeço a Ele por ter um emprego de verdade.
Eu gosto muito de histórias assim do cotidiano das pessoas, sempre aprendo muito quando leio...agente acaba se identificando com os personagens e se redescobrindo.
Quando esse algo se tornar um livro me avise professor, pois sei que será uma obra de muito valor...
Abraços
Heidi
Heidi,
ResponderExcluirVocê sempre benevolente, mas o agradeço muito.
Procuro imaginar as situações que ocorrem no mundo e procuro humanizar as mais díspares situações. Tento transmitir uma qualidade no olhar de forma diferenciada, usando muitas vezes uma ironia sútil, com o intuito de levar às pessoas a uma reflexão, quebrando paradigmas.
No que tange ao livro estou no processo de rascunhá-lo.
Um forte abraço,
Paulo Roberto
Este é o meu favorito, muito bem feito. Você tem uma mente brilhante!
ResponderExcluirQuando eu crescer quero ser igual a você!
Paula,
ResponderExcluirBom que tenha priorizado a leitura dos textos e esse tenha se tornado o de sua preferência.
Obrigado. Quanto a mente, insofismavelmente, a sua é que luzidía. A utilize sempre.
Beijos
Olá Paulo!
ResponderExcluirO Heidi me indicou o seu blog e estou impressionada com o que tenho lido.
Parabéns mesmo!
Ah!!! Preciso muito de umas dicas para o meu TCC.......risos
A propósito, a Denise falou que encontrou com você um dia desses.....ela está agora, aliás, como sempre "quebrando o gelo" com os novos professores!!!
Forte Abraço!
Aline Jandre
Aline,
ResponderExcluirObrigado pelo comentário sobre os textos.
Naquilo que puder ser útil quanto ao TCC estarei a disposição.
A Denise não tem jeito, aliás, passe o blog para ela.
Grande abraço a você e a todos da turma.
Saudosamente,
Paulo Roberto
Bom dia Paulo!
ResponderExcluirMesmo que este seja "cinza"...risos
Vou passar o seu blog para a Denise sim, caso o Heidi já não o tenha feito!
Quanto ao meu TCC, pôxa....se eu soubesse, teria escolhido um tema voltado para economia....risos
Qual é o seu e-mail?
Muito obrigada mesmo pela sua disposição!
Forte Abraço,
Aline Jandre
Aline,
ResponderExcluirIndependente de não ter escolhido a famigerada área econômica, tenho a convicção que sua opção foi acertada.
Meu correio eletrônico ( "e-mail" para vocês), isso é coisa de velho impertinente é:
prfariacastro@gmail.com
Um grande abraço para você e os seus,
Paulo Roberto
Sempre sentindo o senso sabio de vossa esselencia - aiii! - sou sustado nos meus sonhos de ser como o senhor. O que seria de uma sonsice enorme de minha parte pois sendo o senhor sabedor de segredos meus que sequer confessados seriam se tornaram sabedoria sem igual
ResponderExcluirJorge Luiz,
ResponderExcluirSua condescendência comigo é impar.
Acho que deveria ter sido mais conciso nesse texto,mas o miserável do personagem, acabou "dominando-me" "deixando-me" "definitivamente" "difuso" o mesmo.
Olha a maldição da letra "D".
Abraços
Eu achei o maximo
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